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17.10.17

Entrevista à Lucila Guedes, junho de 2002

[ENTREVISTA CONCEDIDA EM JUNHO DE 2002 Á JORNALISTA LUCILA GUEDES DO JORNAL DA AEITA (Associação dos Ex-alunos do ITA) E PUBLICADA COM PEQUENOS CORTES E ALTERAÇÕES NO NÙMERO 56 , DO REFERIDO PERIÓDICO]


LG - Conte um pouco sua história antes de entrar no ITA: onde o senhor nasceu, onde morou e porque procurou o ITA (se sempre quis o curso ou foi mais obra do acaso).

S - Sou natural do Rio de Janeiro, do bairro de Vila Isabel, filho de família relativamente pobre de dinheiro, mas não de valores mais ou menos sofisticados. Se explica: meus pais eram ambos membros de ramos decadente de sua respectivas famílias. Estudei no Colégio Militar, pagando uma pequenina mensalidade. Para tanto meu pai, todo o ano ia ao Distrito Policial do bairro para obter um certificado de “miserabilidade em face da Lei”. Eu achava o máximo: era o único ali a possuir este título oficial com carimbos e estampilhas. Bem, um dos meus colegas no último ano era filho do Brigadeiro Teles(ou Telles?) Ribeiro, comandante do CTA, e convidou alguns colegas para visitarem o ITA, entre eles, eu. Por isso, cerca de 10% da minha turma fez exame para o ITA e creio que 4 passaram para o primeiro ano, eu inclusive, e outros 3 para o preparatório. Achei o exame um barato: não precisava “saber” nada; era só raciocinar. Fazia eu ainda exames para a E. N. de Engenharia, quando recebi a notícia da aprovação para o ITA; parei no meio, porque as vantagens financeiras eram patentes e decisivas no meu caso. Acertei no que vi e ainda bem mais no que não vi.

LG - Qual foi o curso escolhido no ITA e quando se formou?

S - Eu, como filósofo avant la letttre, tendia sempre para o mais teórico ou abstrato, por isso fui para a eletrônica. Elétrons não se viam, eram mutantes, onda e partícula, girando de um jeito ou de cabeça para baixo num espaço abstrato, sempre em disparada; tínhamos que agarrá-los não com as mãos, mas pelo pensamento.

LG - Qual foi sua trajetória após se formar? Como aconteceu de o senhor se dedicar à filosofia. Me falou por telefone que antes também trabalhou na bolsa de valores?

S - É um pouco complicado, mas vamos sintetizar ao máximo. Primeiramente, uma bolsa do Governo Francês – de Vila Isabel a São José dos Campos e daí a Paris em tão poucos anos; foi a glória. Na volta, engenheiro na Diretoria de Rotas Aéreas, depois, “calculista” na Comissão Nacional de Planejamento (embrião do Ministério do Planejamento, na época chefiada pelo Celso Furtado). Fiz, junto com um ou dois colegas iteanos, uma pós-graduação em análise de sistema, o primeiro curso desta natureza realizado no Brasil. Concomitantemente, fui diretor de uma empresa de estudos econômicos e organização empresarial, onde fazia de tudo. Lá pelos fins dos anos 70 assumi a diretoria técnica da BVRJ. Graduei-me em economia, mas apenas para evitar problemas com algum Conselho Regional da área econômico-financeira. Fundei e dirigi o IBMEC e junto com Ronaldo Nobre, também iteano “desviado de função”, mais novo, criamos a ABAMEC-Rio. Em 1972 fomos demitidos da BVRJ e do IBMEC a bem da tranqüilidade da roubalheira que então assolava o País; que novidade! Proibidos de trabalhar na área pelas autoridades financeiras (exclua-se, neste particular, apenas o Ministro da Fazenda de então, Delfin Neto). Num encontro casual, fui convidado por um iteano meu contemporâneo – Ovídio Barradas – para ser diretor financeiro da TELERJ (hoje TELEMAR). Fiquei 4 meses esperando que o SNI decidisse se eu era ou não agente da KGB. O general Siqueira, presidente da Empresa, um bom baiano, depois de muito esperar perdeu a paciência e falou com o Delfin, seu amigo, que “quebrou o galho”: em 24 horas fui declarado inocente, apto pois a assumir a Diretoria Financeira da TELERJ. Um ano depois fui para a diretoria Financeira da EMBRATEL; cinco anos após assumi a vice-presidência desta mesma Empresa. Liderei a luta pela implantação da RENPAC, do Ciranda e do Cirandão, as duas últimas, redes teleinformacionais que já faziam tudo que faz a Internet hoje. Em 85, começa a desmontagem da Empresa e sou demitido por ter atrapalhado (apenas o que pude, acho que relativamente pouco) a mutreta armada em Brasília para a compra do primeiro satélite brasileiro. Em licença de saúde, sofri o diabo por 3 anos. Retornei em 1988 e me concedem o dever de não fazer nada. De 1988 a 1992 escrevo cerca de 1800 páginas, sobre filosofia, especialmente lógica, em geral, de onde, depois de depuradas e reelaboradas têm saído os meus escritos publicados. Me aposentei em 1995 depois de passar por sério problema de saúde (mistura quase mortal de cigarro e um pequeno amor à madástria).

A filosofia, antes de ser uma atividade profissional, sempre foi para mim um modo de viver e ver o mundo. No íntimo, nunca passei para o lado da filosofia, sempre estive por lá. Para fixar um marco, diria que o meu primeiro escrito, bastante matemático, entretanto, já com laivos filosóficos foi feito nos meses em que eu esperava a decisão do SNI. Mostrei este pequeno opúsculo ao Professor Almir de Andrade (que escrevia discursos para Getúlio e depois para Juscelino, por isso ganhou um cartório e comprou tudo de livros), homem de rara sabedoria e caráter. Passados alguns anos ele estava envolvido na criação da Academia Brasileira de Filosofia e me mandou um recado: se eu queria ser membro da dita cuja. Aceitei, meio atônito. Afora os parentes, os amigos íntimos e irrestritos, só ele conhecia meus pendores filosóficos... de certo modo, ainda por desabrocharem. Ele achou por bem apostar e assim eu ingressei oficialmente no ramo, na Academia Brasileira de Filosofia, ao lado do próprio Almir de Andrade, Gerd Bornheim, Emmanuel Carneiro Leão, Miguel Reale e outros medalhões. Daí por diante, minha grande tarefa era não desapontar o amigo Almir de Andrade (para quem não sabe, pai do Roberto Bonfim, ator em tudo que é novela da TV Globo)

LG - Sua vocação (filosofia) foi notada antes, durante o curso ou foi depois? Se teve início antes, qual foi seu objetivo em fazer o curso do ITA? Se depois, o que o senhor pensou sobre a profissão que atuaria? Por que e quando preferiu deixá-la?

S - Como lhe disse, filosofia era para mim um tipo de atitude diante da vida e do mundo. Sempre procurei fuçar o lado mais recôndito das coisas. Uma espécie de preguiça mental: saber o estritamente fundamental e depois deduzir o resto. Você não percebeu que eu já achara um barato o exame de admissão ao ITA? Dali, eu pressentira: o curso do ITA serviria para tudo. Sem demérito para os contadores, você já imaginou um iteano que viesse a se dedicar a tais misteres. E também, agora com demérito mesmo, os economistas que afundam hoje o País, passando antes pelo ITA? Não seria maravilhoso, todo mundo iteano, a grande maioria em “desvio de profissão”. Sei que teríamos, como sempre aconteceu, escabrosas exceções, mas na média, estaríamos hoje certamente muito bem.

A bem dizer, eu não larguei a profissão de engenheiro de eletrônica do ITA, apenas exerci suas potencialidades um pouco conforme as circunstância e a idade

LG - O senhor é aposentado, como me contou. Mas continua a dar aulas? Como é sua atuação no momento ?

S - Eu fui aposentado por motivos de saúde. Mas, dar aulas e escrever, para mim, já não é mais trabalho, mas uma terapia altamente eficaz. Nunca fui comunista, mas, ironicamente, hoje recebo de acordo com as minhas moderadas necessidades e trabalho duro, pelo menos 8 horas por dia, conforme as minhas possibilidades, recebendo apenas para pagar o taxi e o monte de xerox que distribuo aos alunos. Dar aulas com regularidade – obviamente, com uma moderada carga horária semanal –, foi o melhor remédio que achei para regularizar a minha tendência hipertensiva. Embora eu tenha alunos de 17 a 65 anos, a maioria é de jovens e estes, em geral, são bastante generosos, de sorte que o contato com eles retarda bastante o envelhecimento mental e se não melhora, pelo menos, não piora a saúde.


LG - Mesmo tendo mudado de profissão, o senhor faz parte de um grupo da população que pode se considerar privilegiado, já que o ITA é uma das melhores faculdades do Brasil e mais de 50% de seus ex-alunos ocupam cargos de diretores, gerentes e presidentes de empresas. Como o senhor pensa, como iteano, o que isso muda em sua profissão e o que o senhor carrega do ITA até hoje?

S - Me considero um privilegiado sob múltiplos aspectos. Do ponto de vista da formação bastaria lembrar minha passagem pelo Colégio Militar e pelo ITA. Fui certamente um dos mais jovens iteanos a ocupar cargos de direção.

O ITA foi fundamental para a minha formação em geral. Toda gente cita apenas o nível do ensino, mas não é só. Professores precisam se dar ao respeito, além da competência técnica, devem ser exemplares sob outros aspectos, como no respeito ao outro, no senso de justiça, na seriedade intelectual, no amor ao Brasil, etc... Creio que proporcionalmente, o ITA, por alguma circunstância histórica, teve sua cota de exemplaridade docente bem acima da média. Acima, pairava o Brigadeiro Montenegro, um brasileiro de verdade; já no ITA, tínhamos professores como Walaushek, Chen To Tai, Leônidas Hegenberg e muitos outros, que os aqui lembrados, certamente bem representam.



LG - É possível aplicar alguns conceitos de sua profissão atuando como professor de filosofia?

S - Muito mais do que se poderia, a princípio, imaginar. A grande filosofia sempre esteve em sério diálogo com o saber científico. Assim foi entre os pensadores gregos; bastaria citar o interesse dos pitagóricos pela matemática, as concepções atomistas de Leucipo e Demócrito, o apreço platônico pelo rigor metodológico da geometria e a contribuição seminal de Aristóteles para a lógica formal. Na modernidade, o diálogo entre filosofia e ciência se mantém ainda mais vivo com Descartes, Pascal, Bacon, Kant, Hegel, Husserl. Só recentemente, pode-se dizer, aconteceu o divórcio e com isso a filosofia se apequenou, foi habitar os desvãos da cultura. A familiaridade com a ciência, não com a última novidade técnica, mas com seus fundamentos é essencial, para que a filosofia se revigore. O tipo de ensino que se dava no ITA à minha época, por se preocupar com os fundamento e rigor em quase todas as matérias ensinadas – e espero que ainda assim seja – foi uma contribuição essencia1 para a força, rigor e consistência geral do meu pensamento filosófico.

Na atualidade, diagnostica-se que impera o chamado “pensamento único”, que na aparência, seria um pensamento meramente interesseiro ou ideológico. A verdade é que a lógica tem por “objeto” justamente o pensamento. Tão apenas por isso, somos obrigados a concluir que se impera um pensamento único é que por trás impera uma lógica única, no caso, a lógica formal, lógica do cálculo de todas as coisas deste e doutros mundos. Isto posto, como pensar qualquer coisa de novo sem antes compreender bem o que é a lógica? Acho que comecei a compreender boa parte disso no ITA [SE ACHAR POR BEM, PODE PARAR AQUI,MAS, A MEU VER, O QUE SEGUE É O MAIOR ELOGIO QUE SE PODERIA FAZER AO NOSSO ITA], mesmo que alguns professores e especialmente os reitores da época, não soubessem bem o “tamanho” da ESCOLA que circunstancialmente dirigiam. Mais isto é Brasil, somos nós. Caso eles soubessem um pouquinho sobre isso, o ITA não seria apenas a melhor escola superior do Brasil; seria a melhor do mundo.


LG - Em sua profissão, como as pessoas viam o senhor como professor de filosofia e engenheiro? Isso sempre foi curioso para elas ou natural? Como o senhor encara isso?

S - È curioso, mas nos ambientes filosóficos que presentemente freqüento, uma graduação em engenharia eletrônica do ITA, ainda infunde mais “terror” do que muito doutorado em filosofia. Mas a coisa é bem mais séria e profunda. Dá para você me acompanhar: o grande problema da humanidade e logo da filosofia hoje é fazer ressurgir o pensamento e a vontade utópicos; em palavras mais simples, fazer renascer o sentido e a esperança na vida. Isto implica que a filosofia venha assumir a função de crítica radical da cultura. Que cultura? A cultura moderna, em cujo cerne está a ciência, particularmente, a física, que não é um saber como os outros, mas, sim, um saber desejante, um saber desmesurado que se propõe explicar tudo valendo-se de apenas três grandezas – tempo, espaço e matéria, daí, os nossos famigerados sistemas de medida cgs, mks. Seja lá o que for, basta-nos três letras, todas as demais grandezas podendo ser expressas em função apenas daquelas três. Algo semelhante ao que foi a filosofia, saber desejante dos gregos: explicar tudo a partir apenas do Um, isto é, do Ser. Deste modo, para se tornar realmente crítica da cultura, a filosofia está hoje obrigada a se confrontar com a ciência, não para substituir o método científico em sua seara, mas para pensar a ciência em sua profunda significação sócio-cultural. Se o filósofo não conseguir dialogar com o cientista, ainda que em nível filosófico, aquela pretensão da filosofia – qual seja, a de abrir caminho para a utopia, para a vontade de um mundo melhor – estará irremediavelmente comprometida. E todos nós, sem salvação. Você pode agora imaginar o quanto as aulas de geometria e lógica (ainda que formal), com o professor Hegenberg, os seminários de applaied mathematics , com o professor Murnaghan, os cursos de física, com o professor Spangenberg e tantos mais me ajudaram e continuam a fazê-lo até hoje?


LG - O senhor tem quantos livros publicados? Escreva um pouco sobre eles, do que tratam.

S - Tenho três livros publicados– Lógica ressuscitada - Sete ensaios, A lógica da diferença, e Filosofia da cultura - Brasil, luxo ou originalidade –; tenho outros três como participante e mais uma dezena que circulam em cópias xerox por aí a fora. Acredito ter conseguido, nestes três livros, reunir um bom número de resultados sobre a lógica e áreas adjacentes, todos eles formando uma trama de razoável grau de coerência. O epicentro do meu labor filosófico está pois na lógica. Fiz um mapeamento geral das lógicas da tradição; caracterizei-as por princípios estritamente operatórios e homogêneos; valendo-me de um formalismo de êxito já consagrado na mecânica quântica, associei valores de verdade a valores próprios destes operadores; dei contornos precisos ao que denomino lógica da diferença (incorporando definitivamente o pensar inconsciente ao universo das lógicas); por fim, desvelei uma nova lógica, a hiperdialética, síntese das lógicas da identidade e de duas diferenças independentes e irredutíveis, lógica imprescindível para que se possa dar conta das coisas e dos processos humanos em sua real complexidade, vale dizer, para além do cientificismo ora reinante. Após este ingente trabalho de esclarecimento e síntese no terreno da lógica, formulei uma precisa antropologia filosófica (um passo além da concepção estruturalista lévi-straussiana) e redesenhei uma conseqüente história da cultura, em cujo prolongamento se abre, ancho e luminoso, o espaço para a emergência de um novo pensamento utópico; há certamente um lugar de vida e esperança para lá da cultura cínica científica moderna. Acho que consegui a decifrar um pouquinho mais a alma brasileira. Bem, toda essa renovação da lógica tem efeitos profundos sobre os fundamentos de praticamente todos os saberes estabelecidos: na matemática, na física, na cosmologia, na antropologia, na psicologia, na economia, mesmo na teologia (que começa agora onde justamente se esgota a hiperdialética mundana). Acho que chega, senão vão me acusar de estar mais para camelô do que filósofo. Gostaria de finalizar agradecendo-lhe o trato delicado e a objetividade das questões, e à direção da AEITA em se interessar pelas minhas respostas.

Entrevista à João Baptista Dias Barboza, julho de 1999

[ENTREVISTA CONCEDIDA AO DIRETOR DE SINERGIA, JOÃO BAPTISTA DIAS BARBOZA, EM 2 DE JULHO DE 1999 E PUBLICADA NO MESMO ANO EM WWW.EDITORAELETRONICA.NET, RGS]


JB – A minha proposta para esta entrevista foi motivada, entre outras coisas, por uma outra entrevista, aquela que você concedeu a Marcelo Celani Barbosa, autor de As Lógicas, que, diga-se de passagem, fez ali, sem dúvida, um meritório esforço de tornar mais acessíveis suas idéias sobre a lógica. O que me intrigou bastante, entretanto, foi a rapidez e facilidade com que, na referida entrevista, você passava do plano das abstrações lógicas aos problemas concretos da vida diária. Para começar, você poderia explicar como isto acontece?

LSCS – Nunca refleti antes sobre isto, mas assim de chofre eu levantaria duas hipótese. Uma biológica, outra biográfica.

Eu acho que a lógica é o mais próximo de nossos saberes, pois ela é o saber sobre os nossos modos efetivos de pensar, e não apenas, como se tem por aí, uma ciência das inferências (proposicionais) válidas ou corretas. A lógica no fundo é a mera tematização de algo muito primitivo e fundamental que somos e fazemos desde que nascemos e falamos. Chomsky insiste muito em que nossa disposição para a linguagem é inata; eu creio que o mesmo se deve dizer de nossa disposição para o pensamento - considerado este em todas as suas modalidades -, ou das lógicas que apenas o tomam como “objeto”. As diferenças de desempenho lógico deveriam ser aproximadamente as mesmas que as diferenças de desempenho lingüístico. Assim, a falta de lógica que tanto se vê por aí, esta sim, é que tem que ser aprendida... duramente aprendida. A facilidade que você teria notado não seria nada de excepcional, mas um simples exercício de autenticidade, de tentar ser o que biologicamente já se é, o que qualquer um pode também fazer.

A explicação de cunho biográfica seria que as minhas preocupações com os problemas concretos da vida vieram primeiro, lembro que muito cedo: Que fazemos por aqui? Que é o Universo? E estas pequenas e grandes coisas que nos fazem felizes? Por que tantos sofrimentos? Que país é esse, que amamos e depois ficamos doidos atrás de um motivo que o justifique? A minha preocupação com a filosofia, em particular com a lógica foi uma conseqüência, tardia, já bem longínqua de tudo isto. Daí, que o que você viu como uma “viagem” do abstrato ao concreto eu vejo e sinto como o simples passeio de volta à casa, vindo por caminhos já bem conhecidos. Não sei se satisfez...


JB – A propósito da questão pensamento e linguagem que você aludiu de passagem, eu lembraria que em Linguagem e Pensamento, Pierce nos instiga com a questão: Será o pensamento anterior à linguagem ou esta um pre-requisito para o pensar? Ou pensamento é linguagem? Lembro, ainda, em Orwell (1984), a tentativa de controlar a língua através da supressão de palavras para, assim, anular a possibilidade de pensamentos e ações contra o regime. Em Weber (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo), Marx (A Ideologia Alemã), Marcuse (O Homem Unidimensional) e tantos outros, sem falar em textos mais populares, temos importantes referências a respeito destes problemas. Malfadadamente, por aqui, estas questões têm o estigma de teóricas e o teórico, de irreal. Simplesmente não existe. O que você nos diz disto?

LSCS – Para que eu possa dar uma resposta clara a esta questão é preciso que antes nos entendamos acerca do que consiste o pensar. Na minha opinião o pensar em geral deveria ser considerado como a capacidade de ter e processar representações, capacidade esta solidária àquela de ser dotado de sistema nervoso central (SNC). Do ponto de vista lógico, como há muito mostrou Platão (no diálogo Parmênides), o conceito, a idéia ou se quisermos o simbólico exige a capacidade lógico-dialética (I/D), pois, em sua plenitude, isto é, como símbolo abstrato ou convencional, ele vai implicar o ser múltiplo (o significante e, bem distintos, seus referentes) e ao mesmo tempo o ser um (um símbolo). Um animal que tenha um SNC que opere apenas até o nível dialético (I/D), como um cachorro, por exemplo, pode operar com símbolos, inclusive convencionais ou abstratos, isto que qualquer um pode constatar. Aliás dizer que se trata de um reflexo condicionado é dizer o óbvio, é dizer que o cachorro tem algum motivo para fazer tal associação simbólica, como nós, o que me parece muito saudável. Caso contrário, se fizéssemos associações desmotivadas (não condicionadas), nós, tanto quanto os cachorros, é que não estaríamos muito bem da bola. Retomemos a nossa linha de raciocínio. Se a capacidade deste animal não vai além da dialética (I/D), nele, a articulação de símbolos ou representações elementares vai ficar restrita à uma lógica menor, igual ou inferior à dialética (I/D). De fato, ela é operada pela lógica da diferença (D), que é a lógica da espacialidade. O cachorro poderá articular suas representações por processos semelhantes aos processos primários do inconsciente, marcados pela proximidade biográfica das suas representações. Os referidos processos são a condensação e o deslocamento, que justamente operam quando sonhamos. Um pensamento articulado como o nosso, entretanto, exige regras, leis sintáticas, isto é, uma gramática, procedimento governado pela lógica clássica ou formal (D/D), que portanto vai além da capacidade dialética (I/D) de representação simbólica elementar. Só esta lógica é capaz de operar a articulação de significantes para produzir um complexo simbólico, uma frase, um discurso, e isto o cachorro não faz. O discurso é um simbólico de maior complexidade, que compreende o simbólico elementar, governado pela dialética (I/D) e mais uma gramática, governada pela lógica clássica ou formal (D/D), portanto, sua lógica tem que ser no mínimo hiperdialética qüinqüitária (I/D/D). O pensar humano, em essência, é a capacidade de operar a identidade (I), a diferença (D), a dialética, síntese do pensar da identidade e da diferença (I/D), a diferença da diferença ou formalidade (D/D) e a síntese de todas estas capacidades (I/D/D). Assim, a capacidade de discurso e de pensar são no mínimo isomórficas, senão coincidentes. O interessante é que para a maioria das pessoas, em especial na cultura ocidental moderna, o pensar mais prestigioso, perfeito e acabado, é o pensar formal, dedutivo, governado pela lógica clássica ou da dupla diferença (D/D), que é também o único que o computador pode operar. Daí qualquer um pode imaginar as confusões que isto gera, quando um ser de nível lógico qüinqüitário (I/D/D), que somos todos nós, acha que o pensar perfeito é o pensar lógico formal (D/D). Isto eqüivale a pensar que para pensar melhor necessita-se pensar menos, pensar menor, ou seja, dis-pensar o próprio pensar. Não acha um pouco de loucura?! E é.



JB – Eu constato que existe aqui uma ojeriza em relação à Lógica. A pesar de estar por toda parte - Psico-logia, Bio-logia, Socio-logia, Tecno-logia, Eco-logia, Teo-logia - falar da Lógica parece-lhes divagação estéril, teoria inócua, fora da realidade... Você que tem estudado profundamente este conceito, como explicaria este fenômeno ?

LSCS – De modo geral já se identifica incorretamente a lógica com a lógica clássica (faz parte da norma cultural do Ocidente moderno, como eu estava acabando de dizer), o que ocorre com muita gente boa, inclusive com pensadores de grande renome aqui e alhures. É um absurdo, tendo-se em conta que qualquer pessoa de bom nível educacional já terá certamente ouvido falar, pelo menos, na dialética da idéia em Platão, na dialética da História em Hegel, na lógica transcendental de Kant e de Husserl, sem esquecer a mais recente lógica lacaniana do significante (que é autenticamente mais lógica do que muita gente acredita) Como você diz, a lógica clássica ou formal está por toda parte, em todas as logias, e hoje, a vemos invadir todos os cantos e recantos da vida pessoal e social com os computadores, que pouco mais fazem do que operar, com incrível rapidez, é verdade, de conformidade com a lógica clássica ou formal; eles são esta própria lógica materializada.

Não vejo como mudar isto sem um grande esforço educacional. Precisamos pensar numa reforma do ensino básico, usando como fio diretor a lógica, não a lógica clássica, mas as lógicas em geral. Venho pensando nisso há muito tempo, desde que fui convidado, há uns dez anos atrás, para uma palestra no tradicional Colégio Pedro II, no Rio, num seminário de aperfeiçoamento de professores de filosofia. Na ocasião escrevi um texto sobre isso - Introdução à Lógica, vo.l I, Compacto - e recentemente voltei a me ocupar do assunto em A Lógica da Diferença. Mas ninguém dá mesmo a menor bola para isso. O importante, dizem hoje, é a educação para aumentar a “empregabilidade” relativa a empregos que por seu turno vão desaparecendo...

A ojeriza de que você fala, me parece, não um fenômeno intelectual/compreensivo, mas de ordem emocional/coletivo, é um sub-produto da sub-cultura de nossas elites que, como eu já disse, dis-pensam o pensamento. Se a lógica é a tematização do pensamento, em geral, a ojeriza à lógica não é outra coisa senão a ojeriza ao pensamento!



JB - Para ser bastante franco, olhando o conjunto de seus escritos e a maneira com que você se vale da lógica, fica para mim a impressão que para você a lógica, em especial sua lógica hiperdialética-qüinqüitária, é uma arma de guerra, e de certo modo um substituto da frustração de não dispormos da bomba. Qual a verdadeira dimensão política, ou bélica, de seu trabalho com as lógicas?

LSCS. As vezes vemo-nos diante de perguntas que não podem ser superadas por quaisquer que sejam as respostas. Parece-me aqui o caso. Vou tentar responder, mas já sem qualquer esperança de fazê-lo à altura.

Vamos começar com a bomba, já que você falou nela. Eles, da cultura dominante, tentam de todo jeito impedir que tenhamos a bomba, e, na mesma semana em que nos parabenizam por renunciar formalmente a ela, anunciam novos testes nucleares para aprimorar as suas. Continuam produzindo armamento químico e bacteriológico. Um deboche, mas é e sempre foi assim mesmo, e não há mesmo saída por aí.

Quem quiser de fato lutar por sua cultura, ou mesmo por sua simples variedade cultural, precisa de uma política “armamentista” muito especial, em relação à qual a bomba deve ser tomada como simples metáfora. Precisa-se de fato descobrir a arma que atira numa só direção, algo assim como o veneno da cobra que mata o outro, mas não a própria nem os seus. Uma arma que poderemos deixar largada em qualquer canto, sem preocupação com as nossas crianças a peguem ou que o inimigo a roube. Para nossas crianças não deve passar de um brinquedo educativo. Se, por outro lado, o inimigo subtraí-la para usá-la na melhoria do seu desempenho bélico-cultural (por exemplo, no aprimoramento de seu sistema educacional), ótimo, pois ela estará automaticamente se voltando contra suas próprias intenções beligerantes.

Deslocar o campo de batalha para o campo da lógica é a melhor estratégia que consigo ver, não pela lógica em si, mas pelo que ela nos permite vislumbrar em termos do processo cultural de longo curso. É algo como o modo oriental, particularmente chinês, de ver o mundo, só que eles o fazem retrospectivamente (I/D) e nós só temos como fazê-lo prospectivamente (I/D/2). O chinês que negociou a devolução de Hong-Kong para 1998 pensou que já a estava recebendo de volta, pois se identificava com seus filhos, netos e bisnetos e o inglês, pensou que não a estava de fato entregando, pois estava apenas pensando em si e no retorno de seus investimentos. Só no eixo cultural de longo prazo você pode levar vantagem contra o establishment, que também não deixa de ser cultural (D/2), mas não pode deixar de pensar e agir a curto prazo, mais econômica do que culturalmente, pelos compromissos que assume e pela prioridade que dá à garantia dos seus privilégios materiais do presente.

Em certos dias em que acordo de elevado astral, realmente penso que a lógica hiperdialética qüinqüitária é a nossa grande arma política. Outros dias, fico sinceramente reticente.... O que eu não percebia bem é que me traia assim tão facilmente de ser percebido...


JB: Tenho observado nas conversas que travo com intelectuais e acadêmicos um completo desprezo (por trás, talvez, temor; quem sabe, despreparo?!) em relação a alguns conceitos que, no entanto, me parecem fundamentais. Entre eles, o que muito me espanta, estaria o conceito de CULTURA, uma de suas especialidades. Quando se referem ao Social, freqüentemente cometem-se erros de categoria (lógica) na simples identificação de suas dimensões básicas: o Social se compõe para eles do Econômico, do Político e do Social, de novo! Onde estaria o Cultural? Isto tem um significado? Trata-se de um fenômeno apenas brasileiro?

LSCS – Você percebeu bem. Ë um absurdo dizer que o Social é formado pelo Político, Econômico e o Social mesmo. Ë como dizer que A Santíssima Trindade tem como Pessoas, O Espirito Santo, o Filho e a Santíssima Trindade mesma. Ou que o corpo humano é dividido em cabeça, tronco e corpo humano! Veja, nossa constituição está assim dividida: ordem política, econômica e social. O atual Presidente da República no discurso em Lion, em que recebia o título de Doutor Honoris Causa, se valeu desta mesma absurdidade. Como é possível que tanta gente, muitos freqüentando a cimeira acadêmicas, possa insistir numa coisa risível para uma criança de 12 ou até 10 anos. Já pensou no que eles lá fora pensam de nós, como candidatos ao Primeiro Mundo?!

O que chamam por aqui problema social é na verdade a banda podre do econômico mesmo. O que se quer é mostrar que a política econômica é boa, mas suas nefastas conseqüências não são econômicas, mas sociais, devem-se à ignorância do nosso povo. É aquilo que eu disse poucos momentos atrás: o pensar se dis-pensando para atingir sua perfeição (cultural anglo-saxônica).

O que se faz, portanto, é dividir o econômico em econômico bom e econômico mau, chamar este último de social, e colocá-lo por cima, ocultando o cultural. São múltiplas as vantagens disto (para os enganadores). Escamoteiam a banda podre do econômico; com outro nome esta passa ser culpa da própria população ignorante. E pior, como você pode bem perceber, ocultam com ela a dimensão cultural. É obvio que o social de verdade é formado do cultural (fonte de sua unidade I), do econômico (fonte das suas diferenças, D) e do político (onde se dá a regulação entre a unidade e a diferença, por isso, é esta a instância dialética por excelência, I/D). Por aí se vê de imediato que sem cultura não há salvação e é precisamente isso o que se procura ocultar com a aquele erro de categoria elementar. Você se queixa, mas de todo o País, parecia-me que eram vocês ai do Sul que tinham pelo menos alguma sensibilidade para o assunto, como se via nos seus CTGs. Há algum tempo que não vou por ai; será que a perderam em tão pouco tempo?!

O que se precisa de fato compreender é como um mecanismo de manipulação ideológica tão elementar pode funcionar enganando milhões. A meu juízo isto acontece porque com ele se toca no inconsciente da população, a fazendo retroceder à idade de 5 anos ou menos, quando todos nós éramos ainda incapazes de lidar com a dialética (I/D) e assim, diante do contraditório - por exemplo, de um pai ao mesmo tempo protetor e castrador -, apelávamos para uma defesa fóbica, tomando as características ruins ou ameaçadoras e as projetando, por exemplo, sobre cavalos ou cachorros. A coisa só funciona porque apela para um mecanismo fóbico ancestral.

Você perguntou se este é um fenômeno brasileiro. Do que eu conheço, sim, embora eu desconfie que o mesmo possa acontecer na América Latina e na África, onde como aqui, a elite trata o povão como débil mental. Este é tão apenas um de seus expedientes.



JB - Como você sabe começa-se por aqui a discutir o tema político da Terceira Via, nem o neo-liberalismo, nem a volta ao socialismo clássico, reformista ou revolucionário, mas algo novo. Pode-se acreditar? Ademais, eu perguntaria se em termos lógicos, teria isto alguma coisa a ver com a quebra da rigidez do princípio do terceiro excluído, que governa a lógica (clássica), esta, por sua vez, a ciência, que enfim governa a Modernidade?

LSCS – Com exceção de Heidegger e depois, na via inversa, a Escola de Frankfurt, todos os demais discursos políticos podem ser qualificados de ideológicos porque fazem a crítica da Modernidade (ou do Capitalismo) sem criticar a ciência, que é justo sua essência. Isto significa que se quer tão apenas aperfeiçoar a Modernidade ou construir o Capitalismo Perfeito. Querem o mercado disciplinado, a acumulação re-calculada com justiça, a ciência com ética e outras variantes do círculo quadrado. Assim, todos estes discursos, de Lenin a FHC são, no fundo, a mesma coisa. Mais precisamente, ninguém quer a critica da ciência, mas tão somente discutir quem deva ser o seu sujeito: se o sujeito liberal, como requer o paradigma anglo-saxão; se o sujeito coletivo representado simbolicamente por um sujeito absoluto, como pedem as esquerdas, dos jesuítas aos vermelhos, passando pelo verde-rubro, verde-rosa e rosa-choque; se o sujeito romântico ou libidinal, como quer a direita; ou ainda sujeito nenhum, como desejariam as cúrias e as burocracias deste mundo e do além. A terceira via é mais um discurso invertebrado, impotente para pensar a ciência (e não ser por ela pensado, tal como hoje acontece).

A questão que você levanta acerca do terceiro excluído é muito interessante para podermos compreender melhor a situação cultural de hoje. A Modernidade é comandada pela racionalidade lógico formal, pela lógica do terceiro excluído, ou como gostamos de dizer, da dupla diferença. E como tal, ela recalca o pensar da simples diferença, que é precisamente a lógica do inconsciente, do desejo, onde justamente não vigora o referido princípio. Ora, a necessidade do capitalismo consumista de hoje de se apoderar do inconsciente das massas através das técnicas de marketing representa um aperto, dar mais uma volta no parafuso, isto é, agravar o recalque do desejo, o que torna a opressão psíquica cada vez maior. Assim, não está fora de possibilidade que em breve tenhamos, antes mesmo da Grande Queda das bolsas, a Grade Depressão psíquica.

Outro dia tive uma infeção com febre bastante alta e fiquei abismado com os meus sonhos, que não chegavam a ser delírios, mas eram insistentes e que formalmente pareciam correr como correm os textos na tela de um computador. Eram sonhos como outros quaisquer, porém sempre neste formato. Mandei mensagens para alguns amigos contando a novidade que não o era, pois todos disseram que com eles estava ocorrendo algo parecido. Um destes meus amigos chegou a me relatar que estava com uma gripe muito forte e que quando espirrava era como sua cabeça de repente trocasse a tela! Já viu? O inconsciente está sendo marcado, cada vez mais por pressão, pela lógica do terceiro excluído ou da dupla diferença, e para se manifestar tem agora que se submeter, pelo menos formalmente, à lógica formal. Bem, é só daí tirar as conseqüências.

Estes teóricos da terceira via acham que poderão salvar a Modernidade (ou o Capitalismo) apenas tirando-lhe mais uma via... Na verdade trata-se mais uma vez de arranjar um novo sujeito da ciência para nesta não tocar. O que se quer agora é que na produção se tenha um sujeito anglo-saxão (I) e, na apropriação, um sujeito coletivo jesuítico (I/D). Acho melhor o neo-liberalismo, que além de coerente, pelo menos mostra sua verdadeira face... do que a social democracia que aí está, a terceira via e outros híbridos jacaxis... (mistura de jacaré com abacaxi)...



JB - Por que você há pouco excetuou Heidegger e a Escola de Frankfurt como portadores de discursos não ideológicos?
LSCS - Eu classifiquei de discurso ideológico aquele que acredita ou quer nos fazer acreditar que o caminho para a perfeição pode ser alcançado pela simples troca do sujeito da ciência e com isto, tacitamente, deixam impensada ou não criticada a ciência. Apenas escapariam desta fórmula geral, primeiro Heidegger, porque ele diz que a Modernidade transformou o logos (de Heráclito) em lógica (clássica ou formal) e que a ciência e a técnica, que têm por base justamente a lógica clássica, não são mais do que meta-física em seu estágio terminal. E colocou bem claro que a ciência não pensa; ela mesma não se pretende mais do que adaequatio, pura operacionalidade, e só. Nada quer saber da verdade, da alétheia em seu sentido original grego. A Escola de Frankfurt, segue por outro caminho, fazendo a crítica do uso dos meios de comunicação de massa que hoje se constituem na principal força de reprodução/expansão do sistema. Estes são, deveras, modos de pensar que vão além das ideologias, conquanto que ainda insuficientes, a meu juízo, para uma crítica radical da cultura, crítica que possa iluminar os caminhos para uma cultura realmente nova, que é o que nós já estaríamos por merecer.



JB – Em várias passagens de suas obras você afirma que os processos culturais são muito mais violentos do que os processos econômicos, em suma, que a “luta de culturas” é muito mais violenta do que a “luta de classes”. Isto quer dizer que só poderemos alcançar a cultura nova por meios violentos, infinitamente mais cruentos do que a revolução francesa ou a revolução russa de 1917?

LSCS – É, e de certo modo não é. Quanto à violência, pelo que já se viu e hoje do episódio bíblico da adoração do bezerro de ouro, que assinala a passagem da linguagem analógica à convencional, pré-condição do acesso à cultura da identidade I, do Deus único. Pense hoje nos recentes acontecimentos envolvendo a desintegração da antiga Iugoslávia. Mas não é preciso ir tão longe no tempo ou no espaço. É só olhar a História do Brasil, um “ótimo” exemplo, na medida em que ele é muito mais um processo de formação cultural do que de escaramuças econômicas de classe. Por isso, tanta violência. A propósito este é que é o verdadeiro custo Brasil, custo de se envolver na titânica empreitada de invenção de uma cultura. Só deste modo se justificaria tanta violência.

Não vejo sentido é na expressão por meios violentos. Não se terá meios violentos, não porque não haverá violência, mas porque não haverá meios, isto é, não haverá a intencionalidade de fins correspondentes. Em síntese, não teremos sujeitos intencionais destas ações transformadoras, sejam pessoas, grupos de elites ou partidos radicais. Seremos todos, na mesma proporção, atores e pacientes não intencionais desta transformação, aliás como sempre foi o caso das grandes transformações culturais. Até que desta vez estamos tendo alguma chance de tomar consciência de alguns traços relampejantes do curso dos acontecimentos. Para contribuir para esta transformação não se precisa pregar a violência. O perigo, sim, é que se você se mostrar por aí descuidado alardeando por todo canto seu entusiasmo pelo advento da cultura nova, de repente aconteça de lhe pregarem, mesmo com pregos, em algum madeiro...



JB - Você crê que, com os impasses da globalização, podemos estar entrando numa crise profunda e definitiva da modernidade ou do capitalismo. Marx já fez este tipo de previsão e se deu mal por não perceber que o capitalismo tem talvez mais do que 7 fôlegos. Você não está correndo o mesmo risco?

LSCS. Penso que não. Já deixei bastante claro que o marxismo é apenas uma variante de substituição do sujeito da ciência, suplementada com a inversão do sentido da determinação, isto é, o sujeito sendo o determinante na relação, e não como no paradigma anglo-saxão onde a ciência é que o tem sujeitado. Se o problema é a ciência mesma, não seria o marxismo que iria ameaçar verdadeiramente a modernidade, pois ele ainda é um de seus “rebentos lógicos”. Sei também que o capitalismo tem muitos fôlegos, mas isso não significa que seja imortal. Como estamos falando de processo cultural, a imprecisão a ser considerada não pode ser de meses ou anos, mas de décadas ou séculos, de sorte que erros de previsão a curto prazo são inevitáveis.

Erro evitável é, entretanto, aceitar propostas de reciclagem ou de aperfeiçoamento do sistema. Agora mesmo é capaz deles mesmos no poder, daqui a alguns dias, proclamarem as deficiências do modelo neo-liberal, do consenso de Washington, propondo uma série de “profundas reformas” no mercado financeiro internacional, com o reforço da autoridade do FMI e coisas semelhantes e nós, alienados, votarmos neles outra vez. A visão histórico-cultural que venho propondo não permite a repetição a toda hora deste tipo de “me engana que eu gosto”. Quantos, que bem conhecemos, já foram líderes estudantis de esquerda, membros do PC do B, simpáticos à luta armada, exilados no exterior, teóricos da dependência, stalinistas fervorosos, stalinistas surpresos e arrependidos, “democratas” MDBistas ou negocistas da transição, fazendeiros neo-liberais, raivosos anti-getulistas, vendilhões do patrimônio público ...que dificuldade terão para daqui a pouco se proclamarem os grandes próceres do capitalismo internacionalmente solidário e ainda por cima cinicamente exigindo o nosso aplauso? Não estou falando obliquamente do Presidente; ele é apenas uma referência simbólica ou um paradigma (a palavra está em moda!) para muita gente que anda solta por aí.

Partindo para a luta pela cultura nova, que penso ser o nosso verdadeiro compromisso ético, o máximo que nos pode acontecer é errar na data, e jamais, como acontece com nossa elite de todos os matizes, que não conseguem descobrir para que lado fica a porta do banheiro! Quem viver, verá.



JB - Caso eu tenha entendido bem suas idéias sobre a superação da Modernidade, posso concluir que você acredita que a nova filosofia lógico-qüinqüitária terá seu teste definitivo no confronto com a ciência, quando provar que ela é crítica competente da ciência em seu próprio campo. Você estaria querendo substituir o experimentalismo a posteriori pela lógica a priori? Acho que os físicos já sofreram muito até conseguirem se desvencilhar do poder e das pretensões da velha teologia para se deixarem levar por algo que me parece do mesmo jaez. De qualquer modo, você pode dar agora exemplos deste poder crítico da nova filosofia em relação à física, que você mesmo crê constituir o núcleo “duro” da ciência, e esta, o da Modernidade?

LSCS - É ...Para começar, poder crítico não significa poder de criação ou de descoberta. A lógica, mesmo qüinqüitária, não irá jamais substituir o método experimental. O caso é que nem todo o discurso físico hoje assumido pela comunidade científica é de fato empiricamente fundado. Aqui é que está o cerne da questão. Aos olhos do grande público assim parece, mas de fato não o é, e os grandes físicos sabem disso. A lógica pode e deve atacar justamente o que é preconceituoso, e não é pouco, como se constata, se bem que a posteriori, em toda a história da ciência. Não se vai com a lógica contestar qualquer dado empírico que seja, mas fundamentalmente interpretações e algumas das previsões que daí derivam, no todo ou em parte.

É óbvio que mesmo assim a comunidade científica irá reagir a isto, como você mesmo disse, ressentida ainda de suas antigas pendengas com a teologia.

É razoável pedir que se leve em conta que a filosofia lógico-qüinqüitária, a que você se refere, ainda é um projeto, ela só se consumará junto com o advento da cultura nova, por isso, não é justo que se lhe exija tudo por ora. Entretanto, sua questão objetiva não é assim tão difícil de ser respondida, ainda que se corra algum risco. Me perdoe porque agora é impossível evitar temas e linguagem um pouco mais especializada, mas é o desafio implícito na pergunta que o exige. Objetivamente, eu diria que:

Em primeiro lugar, não há possibilidade da síntese da relatividade geral com a mecânica quântica, não apenas porque uma é não-linear e a outra linear, mas porque a primeira é logicamente paraconsistente (encerra alguma contradição, que entretanto não a trivializa) e a segunda é logicamente paracompleta (por isso obrigada a assumir uma feição probabilística); trata-se de uma conseqüência imediata de tomar-se o ente como res extensa, isto é, como ser lógico-diferencial (D); não há teoria das cordas decadimensional ou mais que possa resolver isso;

Segundo, as forças não são quatro; se corretamente computadas são seis, como está dito, por exemplo, em meu trabalho Princípio Antrópico e em Octeto dos Entes, ambos disponíveis em seu Site. Teríamos três forças simples - de Higgs, gravitacional e forte (gluônica) - e três forças compostas - eletromagnética, fraca e de Yukawa (antiga força forte mediada por pions). Atente para o cômico da situação: na síntese eletrofraca começa-se com duas forças - eletromagnética e fraca - e acaba-se de novo com duas - eletrofraca e de Higgs -, pois esta última é ali absolutamente necessária para fornecer, concomitantemente à quebra de simetria eletrofraca, massa aos bosons fracos. O mais importante nisso tudo acaba sendo a força de Higgs, que é na verdade o mecanismo de geração de massa em geral, e não ad hoc como é ainda hoje considerado (o Prêmio Nobel pela síntese eletrofraca deveria também ser dado ao pobre do Higgs, e não apenas para os três que o abiscoitaram);

Terceiro, existe uma gravitação própria ou cliname (simplificando, a relação massa sobre raio, no caso de uma esfera homogênea) a0 - tal como há a massa e o momento angular próprios. A gravitação própria se exerce a uma distância de 10-20 m ou menos; nesta distância e aquém dela a força gravitacional se mantém constante (F = G.a0 2 = constante). Veja! De um lado, se fosse possível um spin realmente zero o mundo seria um caos, dado que ser outro poderia se dar num quantum tão pequeno quanto se quisesse, de sorte que tudo estaria infinitamente próximo de já ser outra coisa do que é; por outro lado, se permitíssemos clinames ilimitados, simplesmente se diluiria a noção de universo porque teríamos a formação de “ilhas ou singularidades absolutas” (daí, os universos-bebês e outras piadas);

Quarto, o graviton não possui spin (isto já é a característica exclusiva e privativa do gluon, mediador da força forte inter-quarks), o que significa mais uma vez afirmar que há alguma dose de sobredeterminação no interior da relatividade geral (o próprio Einstein percebeu isso e tentou mostrar, preventivamente, num artigo de 1939, que não era possível um colapso gravitacional para além do raio de Schwatzschild. No mesmo ano, porém, o Oppenheimer fez outro artigo mostrando o contrário. A nosso ver, buracos negros como singularidades e não como apenas valores limites não podem mesmo existir, embora permitidos pela relatividade geral; aí está o problema;

Quinto, o neutrino do elétron, por um imperativo lógico não pode ter mesmo massa (encontram-na com estardalhaço toda hora e depois desmentem na surdina, como fazem também com pretensos buracos negros); logo, é preciso encontrar outra explicação para o deficit de neutrinos solares e para a tal da massa faltante (massa faltante para que o Alan Guth mereça ganhar o Prêmio Nobel!). Acaba de ser anunciada a descoberta da massa do neutrino. Esperemos alguns meses...

Sexto, o modelo padrão, no que respeita aos quarks, está formalmente correto, mas existe um subnível em que se poderá dispensar as absurdas cargas fracionárias e os “spins decimais” a que as experiências já realizadas para “localizar” os spin internos aos nucleons obrigam. Acho que já disse o principal...

De qualquer maneira, creio que esta lista já é suficiente para satisfazer à sua provocação.

Não estou aqui sendo leviano; estou mesmo me expondo a uma situação que qualquer pessoa sensata qualificaria de altíssimo risco; mas eu não poderia, por uma questão de coerência, fugir à sua pergunta.



JB – Passando a temas menos especializados e insistindo mais uma vez na temática pensamento versus linguagem, eu perguntaria se se pode de fato, ao contrário do que acreditava Heidegger, exercer a filosofia em outra língua que não seja o alemão?

LSCS - Esta questão tem a estranha propriedade de ser séria e ao mesmo tempo uma piada. A piada podemos deixar de lado, pois é para ser saboreada e não respondida. Quanto ao lado sério, eu diria, mesmo sem saber a língua (o que obviamente é um defeito e não uma virtude), que fazer filosofia em alemão deve ser muito mais fácil do que noutra língua sem a mesma tradição, não apenas de “veículo” do pensar filosófico, mas de todo e qualquer pensar, em especial, o poético e o matemático. Em compensação, pode igualmente ser o mais enganoso: é óbvio que em alemão deve ser também muito mais fácil enganar que, não estando, se está pela pose pensando do que noutro qualquer idioma...

Na minha limitada experiência, de fato, em Português as coisas que chegamos a pensar soam muito menos graves e solenes, não em si, mas como fato de cultura. Certa feita “descobri” uma noção muito precisa em física e lhe dei de propósito um nome bastante chulo e intimista, que nem ouso aqui repetir. Procedia então seguindo o exemplo dos físicos do Primeiro Mundo que vêm empregando para suas descobertas conceituais palavras como spin, sabor, cor, estranheza, quark, gluon etc. A reação ao nome foi de tal monta que mal pronunciado ninguém conseguia mais prestar atenção ao sentido físico da noção, já pensando que se aquele era mesmo o nome, ela não podia existir. Não houve jeito e acabei trocando por uma palavra grega ( trata-se do cliname a que há pouco me referi)

Eu posso lhe dizer como venho lidando com o problema. Procuro pensar/me expressar num misto de linguagem natural, figuras caprichadamente expressivas e símbolos formais (dizem que é matemática!). As figuras servem para ampliar a capacidade expressiva do meu texto e o formalismo paramatemático, para ampliar a precisão do que me vai na mente. O Português assim escorado, de um lado pela figuração, de outro lado, pela simbologia formalista, parece-me, tem dado conta do recado, até com sobras, o que se comprova na oportunidade da conversação com estrangeiros. O aborrecido é que volta e meia sou acusado de falta de estilo próprio para o pensar filosófico, eu que pensava ter sido um dos precursores do hipertexto filosófico ... Paciência!

Ainda há as virtudes muito próprias do Português, como ter quatro verbos auxiliares , ser, ter, haver e estar numa homologia quase perfeita com as lógicas de base, respectivamente, da identidade (I), da diferença (D), dialética (I/D) e clássica ou da dupla diferença (D/2), que nos dão uma grande vantagem, pelo menos, no campo da lógica. Honestamente, não é por causa da língua que pouco pensamos, mas por falta de hábito mesmo, e com isso sofre a língua e sofrerão ainda por algum tempo seus futuros usuários.. .



JB - Como será a filosofia do século XXI?

LSCS – Começam a sair livros sobre este assunto, mas até agora não vi nada de relevante, que valha aqui lembrar.

Eu não faria a discriminação de tempo, mas de época. Espero que, no caso, coincidam, que, logo nos seus alvores, o século XXI assinale uma nova época para a filosofia. A nosso juízo, ela já tem nome, melhor dito, já tem sua lógica: será a era da filosofia hiperdialético-qüinqüitária (I/D/2) que virá suceder a era do predomínio da ciência (D/2).

Creio que nesta nova época irão se confundir filosofia e a antropologia, o que de certo modo vem sugerido desde Sócrates. As antropologias específicas - física, econômica, etc. - e a etnologia como estudo de culturas particulares continuarão a existir por si, mas o que hoje denominamos antropologia filosófica é que se identificará com a filosofia como tal. Também a filosofia da linguagem será parte relevante deste processo de convergências, mas de modo completamente diferente daquele hoje propostos pelo relativismo linguístico ao estilo dos jogos de linguagem de Wittgenstein. A filosofia da linguagem estará presente de mãos dadas com a antropologia, tendo-se em conta que a linguagem é a expressão máxima conforme do ser lógico do homem, como já foi lembrado no início desta nossa conversa.

Ainda um pouco mais: na medida em que entre os traços essenciais da nova filosofia está o de subsumir a ciência, também estará incluída na mesma síntese o que hoje distinguimos como filosofia da ciência no estilo, por exemplo, Bachelard.

Saber maiores detalhes é hoje impossível, mas creio que a lógica terá uma posição proeminente na estratégia de transmissão do saber filosófico. Sobre isto, como eu poderia dizer coisa diferente?!



JB - Você poderia avançar alguns traços distintivos da educação na época da cultura nova?

LSCS - Vou me arriscar a pensar alto, o que me dá direito de, chegado o momento, retificar os primeiros ditos. De pronto, diria que pela primeira vez na história da humanidade o homem estará vivendo numa cultura à altura de suas potencialidades (enfatize-se, potencialidades apenas lógicas). Ora, na medida em que todo sistema educacional tem como função primordial a reprodução social (cultural), a reprodução do homem lógico-qüinqüitário não irá mais implicar qualquer castração lógica, ou seja, a educação deixará de ser educação até certo ponto, até certo nível lógico. A nova educação será educação para a auto-realização do ser humano em sua plenitude.

Haveria a questão do horizonte. Cremos que o mais provável é que, alcançada a cultura qüinqüitária, não se absolutize esta sua lógica, tal como o fizeram o judaísmo (com a lógica da identidade I) e o cristianismo patrístico (com a lógica dialética I/D) e pretendeu fazê-lo Hegel e o marxismo (também com a lógica dialética I/D). Os precedentes históricos, podem muito bem levar-nos a evitar a absolutização da lógica qüinqüitária (I/D/2), vale dizer, que o homem venha aceitar a simples possibilidade de existência de algo que logicamente o transcenda. Neste caso, a educação comportará uma componente religiosa profunda, porém, num estilo bastante diferente do que se vem tendo até aqui. Toda religiosidade organizada até hoje parte de que a finitude humana se contrapõe ao infinito, que por ser o que é, tem que ser violentamente proibitivo. Será diferente, na medida em que a finitude humana não irá se contrapor mais ao Absoluto, mas tomá-lo como horizonte para suas ilimitadas realizações.



JB – Já que falamos de educação, gostaria de saber sua opinião sobre a televisão brasileira de hoje e do seu compromisso constitucional com a educação e a cultura do País?

LSCS - Acompanhei bem esta questão no tempo da deputada pernambucana Cristina Tavares, de saudosa memória. Tive a honra de colaborar com ela neste assunto, ainda lembro bem, em reuniões no gabinete emprestado do também finado senador Severo Gomes. Não venho acompanhando em detalhes a reforma constitucional, mas devem ter mudado o já então débil dispositivo constitucional sobre o assunto (sou testemunha de que aquela Deputada propôs coisa bem melhor). Como disse, não venho acompanhando, mas o dispositivo a que você se refere deve ter sido modernizado ou desregulamentado para propiciar a transformação da televisão brasileira em teleshopping, ou telecassino, ou teleputeiro? Talvez nos três juntos.



JB – Para encerrar, uma pergunta que a nós aqui da fronteira, muito interessa: visto de sua perspectiva lógico/cultural. qual o futuro do Mercosul?

LSCS – Você está sugerindo um bom exercício para a nossa reflexão, para o nosso pensamento. O próprio nome Mercosul diz bem do que se trata, de uma parceria econômica, e, mesmo assim, dentro de uma perspectiva bastante estreita ou parcial do que pode ser considerado o econômico em geral.

Veja! Quem tem filhos sabe bem desta estória: a criança quer ficar brincando todo o tempo com seus vizinhos de mesma idade e reluta em sair por uma ou duas horas para ir tomar a benção aos avós. Os pais têm que insistir, embora, de modo geral, sejam compreensivos para com este tipo de comportamento infantil. Quem desconhece esta estória?! Se você disser todo mundo vai errar, pois não estará considerando o caso do atual governo brasileiro.

Nossas relações prioritárias deveriam ser temporais, ou seja, culturais. Temos avós muito importantes no velho mundo mas também aqui mesmo e principalmente na África. Nossa política externa justamente por isso deveria ter como foco principal o Atlântico Sul. Para começar, deveríamos exigir a intervenção da ONU para que as grandes potências parassem de fomentar ondas de genocídios por toda a África, em particular em Angola, para que se possa ter um pouco de paz na Região.

Essa nossa política infantil está, sim, criando um inimigo que não tínhamos à soleira de nossa porta, como deu mostras o presidente argentino, requerendo sua filiação à OTAN. Não é preciso explicar nada, pois se trata de uma organização militar em âmbito do Atlântico Norte. Quem poderia ter-lhe recomendado tão frontal agressão. Temos agora um delegado de interesse maiores, estes sim, poderosos, à soleira de nossa porta.

É obvio que não estamos contra o Mercosul, mas tudo vem sendo feito da maneira a mais desastrada possível, em razão de nossa inexplicável cegueira para os aspectos culturais que estão por trás da geopolítica e mesmo das políticas econômicas em âmbito internacional. É o cúmulo da burrice estratégica. Quem está hoje cuidando dos interesses nacionais brasileiros?! Você saberia dizer?

Vamos parar por aqui, porque não quero prejudicar, mais do que já estão sendo hoje, os interesses realmente brasileiros. E também não exagerar ainda mais na assunção de riscos.

Entrevista à Marcelo Celani Barbosa, março de 1998

[ENTREVISTA DADA A MARCELO CELANI BARBOSA EM MARÇO DE 1998 PARA SER INSERIDA NO SEU LIVRO As Lógicas – As Lógicas Ressuscitadas Segundo Luiz Sergio Coelho de Sampaio, PUBLICADO AINDA NAQUELE MESMO ANO PELA EDITORA MAKRON BOOKS, SÃO PAULO]


MCB- O professor Aquiles Côrtes Guimarães, e parece que você não discorda dele, o coloca no prolongamento de uma linha que vai de Parmênides a Hegel e não de Heráclito a Hegel, esta última que todo mundo conhece, inclusive porque Hegel declara que sua dialética aproveita tudo que foi dito por Heráclito. Por que uma linha e não outra?

LSCS- A pergunta é ótima... é o que todo entrevistado diz quando a pergunta está ótima para ser respondida. Hegel mesmo se filia a Heráclito, considerando-o o primeiro dos filósofos verdadeiramente dialéticos. Assim, a linha Heráclito/Hegel vai da dialética concebida (I/D) à dialética acabada (I/D)[1], de modo que no seu prolongamento só pode haver mais dialética (I/D). Como Hegel se considera o máximo, ficar no prolongamento dessa linha seria tornar-se um pensador dialético redundante (I/D). A linha Parmênides/Hegel é de natureza completamente diferente, é a dos filósofos onto-lógicos, que fazem de ser e pensar o mesmo. Parmênides o faz a nível identitário ou transcendental I; Hegel, a nível dialético ou trinitário I/D. Aqui, sim, pode haver prolongamento que não é pura redundância, embora tenhamos que sacrificar a pretensão hegeliana de ser não ultrapassável. Pode-se chegar a ser e pensar como sendo o mesmo a nível qüinqüitário ou hiperdialético I/D/D=I/D/2. Esta passagem de I/D a I/D/2, é fácil perceber, implica necessariamente que se consiga, de cima, pensar a ciência D/D=D/2. Acho que qualquer um, vendo o tabuleiro agora por inteiro, entre as duas linhas a que você se referiu, faria a mesma escolha, embora isto comporte grandes riscos e suscite grande antipatia.



MCB- É ainda o professor Aquiles, em seu Relatório para o CNPq, que rotula você como um neohegeliano. Você mesmo nomeia sua lógicaI/D/D= I/D/2 de hiperdialética numa obvia referência à dialética hegeliana. Por outro lado você diz que Hegel significou um entrave - progressista, ao focalizar o ser histórico, mas um atraso, quando, já em plena idade da ciência (D/D=D/2), absolutizou a dialética (I/D). Não seria mais “produtivo” se você se medisse não com Hegel, mas com Heidegger que, afinal, é quem domina a nossa época?

LSCS- Este negócio de eu estar me medindo com A ou com B, não é coisa que vá de si assim tão facilmente. Eu fico muito honrado, mas seria o caso de perguntar antes se, ainda que como régua, eles me aceitariam para termo de comparação.

De qualquer modo, se você reparar bem, irá ver que eu cito mais Heidegger do que Hegel, mas quando o assunto é especificamente lógica ele serve pouco para ilustrações didáticas. Desde a minha leitura de Introdução à metafísica ficou-me a impressão de que Heidegger havia antes muito se preocupado com a lógica. Hoje sei que seus primeiros textos de 1911 a 1919 trazem bem explícita esta preocupação, mas o grande problema é que não tenho acesso a estes textos para melhor explorar o tema, o que seria fascinante. Que eu saiba, existe muito pouco sobre o tema Heidegger e a lógica: a tradução de suas lições de 1928, para o inglês, notas referentes às lições de 1934, em espanhol, e a obra crítica, mas muito sumária, do professor Thomas Fay [2]. De qualquer modo, em Noções elementares de Lógica, tomo I, abro a questão da lógica em seu contexto cultural amplo citando justamente Heidegger e depois K. Axelos - Contribuition à la logique - que, a meu ver, foram os que enxergaram mais longe, que perceberam que a crise da cultura é de natureza lógica e correlata à crise da lógica em nossa cultura.



MCB- Crise da lógica?

LSCS- Sim, no sentido da lógica ficar reduzida hoje aos seus aspectos formalizáveis. Antes do pensamento único, como seria mesmo de se esperar, instalou-se a lógica única, já reparou?!

Continuando, quanto às lógicas, Heidegger, pelo enfoque metodológico, isto é, pelo comprometimento com a fenomenologia é lógico transcendental I, porém a emprega na direção oposta àquela de Husserl. Segundo Gerd Bornheim, para Heidegger, a medida do pensar encontra-se no diferente (D) do pensar (que ele me perdoe por ter intrometido um parêntese e uma letra no texto).

Você vê assim que a problemática lógica em Heidegger, à semelhança de Kierkegaard, principalmente, fica sempre entre I e D que, de algum modo, basta-lhe para fazer a crítica da idade da ciência (segundo ele, da técnica), mas é insuficiente para mostrar-nos um caminho a seguir. Como ele poderia enxergar a hiperdialética I/D/2, se lhe falta uma dialética I/D (novamente como em Kierkegaard), um esforço de síntese de I e D, como bem assinalou ainda o Gerd Bornheim em seu Dialética-Teoria/Práxis. Em suma, esta ambigüidade lógica, como eu dizia, torna difícil o seu aproveitamento para ilustrar uma lógica específica. Entretanto, para ilustrar a importância da questão da lógica em geral, inclusive de suas implicações sócio-culturais, ele é ótimo.



MCB- E o comprometimento de Heidegger com o nazismo, não lhe incomoda. Como é que a lógica poderia tê-lo salvo desta enrascada?

LSCS- Isto já chegou a me incomodar muito. Como o maior filósofo do século, uma quase unanimidade, pôde cometer um erro político assim tão grave?! Afinal, mesmo que a filosofia não sirva para nada - que é uma idéia do próprio Heidegger, que aceito de boa vontade -, podia pelo menos iluminar um pouco o caminho para evitar coisas assim tão graves. Eu não tenho a mínima dúvida do seu comprometimento profundo e prolongado com o nazismo. E não se precisa do livro do Farias [3] para se chegar a esta conclusão; basta a lógica da situação, como vou tentar explicar. As defesas que lhe foram até hoje feitas, eu acho, só serviram para comprometer também os defensores. Hoje isto não me incomoda tanto, em parte porque a lógica, acho, me levou a compreender porque aconteceu o que aconteceu. E nós, que combinamos deixar a lógica de lado...

A lógica não podia tê-lo salvo de jeito nenhum porque foi justamente ela que o levou ao equívoco. Veja bem. A modernidade é caracterizada pela lógica da ciência (D/2) e com isto não há quem discorde. Somos todos a favor da ciência - pelo menos para nós -, a começar pelos automóveis, CD’s, viagens em aviões a jato, anticoncepcionais, exames com ressonância magnética, etc.

O grande debate ideológico refere-se, ainda que freqüentemente dissimulado, a quem deva ser o sujeito da ciência: o sujeito liberal anglo-saxônico (hoje, pode-se dizer também social-democrata; é a mesma coisa) (I); ou o sujeito telúrico, romântico, inconsciente (cultural), ou, em sua versão mais primitiva, o sujeito libidinal (D); ou o sujeito coletivo jesuítico, socialista de verdade ou comunista (I/D); ou nenhum deles - é a posição das Cúrias, que não se interessam por qualquer sujeito, ainda que eles próprios, D/2. Politicamente, se não há dialética em Heidegger, exclui-se automaticamente o sujeito I/D. Como ele também não pertence à Cúria, sobram-lhe as opções I e D, identidade e diferença, cultura judaica e cultura grega, filosofia (transcendental) e poesia. Como nos informa o Farias, Heidegger, em suas manifestações públicas no início e no fim de carreira, refere-se a Abrahan a Sancta Clara, herói da resistência à penetração islâmica via Oriente. Islamismo ou semitismo?! De certo modo, a luta contra a penetração islâmica ia atingir também seus meio irmãos, tal como aconteceu no Ocidente, principalmente na Espanha e Portugal. Esta é a meu ver a raiz mais antiga do anti-semitismo europeu. Há outras posteriores, como a migração judaica para Frankfurt por volta de 1800, que dá início ao processo de modernização na Alemanha - que tanto incomodou Hegel [4] e Hölderlin -, e, ainda mais recente, o movimento soreliano [5] no início deste século, mas que não é o caso comentarmos aqui. A opção heideggeriana é pelo sujeito telúrico, pelo torrão natal, pelos gregos, pela cultura, pela poesia, pelo trágico, em suma, pelo sujeito D.

Na passagem para o século XX, o capitalismo vai aos poucos se transformando, o marketing passando a ser o motor do sistema, isso implicando que a sua expansão, doravante, só se faria pela prévia agressão à cultura (dos outros). Por isso, na Alemanha o nazismo ganhou a proporção que tomou, o que não pode ser explicado, de modo simplório, como causado por um grupelho de loucos. O nazismo acabou sendo uma reação antecipada ao capitalismo de marketing (ou a estetização da política?!) [6] como o socialismo soviético foi uma reação retardada ao capitalismo produtivista ou de acumulação (ou a politização da arte?!).

Acontece que o sujeito liberal (I) é por definição um sujeito sujeitado, um sujeito intervalar entre dois sistemas (D/2). Enquanto isto, as opções a direita (D) e a esquerda (I/D) têm a pretensão, não apenas de trocar de sujeito da ciência, mas inverter também sua posição relativamente a ela. Na versão nazi-fascista, significa colocar a ciência (e a técnica) a serviço da preservação da cultura (D). Isto, entretanto, é uma impossibilidade e, mais dia menos dia, a situação irá se inverter, porque a lógica D/2 é que subsume I, I/D e, com mais energia ainda, D, e não o contrário. A modernidade anglo-saxônica não corre este perigo porque ela é essencialmente pervertida, ali o sujeito já nasce tributário, servindo à reiterada restauração do sistema.

A única desculpa para Heidegger seria ter acreditado que o esquema lógico não perverteria, que D manteria o controle sobre D/2. Que ele não teria podido prever que a burocracia de estado (D/2) acabaria assumindo o poder total e usando a manipulação cultural, a propaganda (que era implicitamente tida como arma de agressão à cultura, arma do inimigo), para se manter no poder. É uma boa hipótese, mas, de qualquer modo, apenas uma atenuante. Creio que ninguém saberá ao certo, jamais.



MCB- Certa vez, assisti a uma palestra sua em que você, tratando das ideologias de esquerda e direita projetou um texto de Heidegger que me pareceu muito esclarecedor. Consegue lembrar?

LSCS- Como não! Você tem toda a razão. Não sei como fui me esquecer de mencioná-lo agora. É um texto sensacional da Introdução à metafísica, provavelmente escrito em 1935, antes da Segunda Guerra, em que Heidegger afirma que vê, metafisicamente, a Europa entre duas tenazes: de um lado a Rússia (tendo como sujeito da ciência o ser coletivo I/D) e de outro a América (como sujeito da ciência o indivíduo liberal I) [7]. Onde estaria o desejado sujeito da ciência para a Europa, segundo ele, senão em D? A propósito, uma sutil cantada nos franceses contra o sujeito anglo-saxão que, não fosse o General De Gaulle, poderia ter rendido melhores frutos.

Você vê, mais uma vez, que não se precisa do Farias, mas da lógica, para entender o comprometimento de Heidegger com o nazismo.

Acho que isto é o suficiente para me explicar sobre Heidegger.Tenho uma imensa curiosidade por seus textos anteriores a 1919; talvez isto pudesse obrigar-me a rever, pelo menos em parte, o que disse aqui, Quem sabe?!

[ Não seria bem o que diríamos hoje, depois de ter lido o HERÁCLITO de Heidegger, que parece-nos mais do que suficiente para compreender o filósofo alemão em sua real profundidade lógica, e também parcialidade, conforme mostramos em A LÓGICA DA DIFERENÇA – cap. 6, A lógica da diferença e a tradição filosófica (aguardando publicação). Com isto, por certo, diminuiria o valor propriamente lógico dos textos referidos, mas não obviamente o seu valor histórico compreensivo]



MCB- Respeitando nosso trato, vou fazer uma pergunta, não sobre lógica, mas sobre a recepção das suas idéias sobre ela. Você se queixa com freqüência de uma sistemática resistência neste sentido. Dá para você explicar porque acontece isso? Eu, pelo menos, não tenho a menor dificuldade em entender o que você quer dizer, embora nem sempre concorde. Você não estaria deste jeito, inconscientemente, imitando a tática do Freud, dizendo-se um eterno incompreendido?

LSCS- Que você entende, não tenho dúvida. O mesmo acontece com um bom número de pessoas, em geral, que não se tomam por especialista em filosofia. O que mais me intriga é a reação de pessoas que se têm por estudiosos de filosofia. Veja. Como pode alguém alfabetizado em filosofia desconhecer a existência de pelo menos três lógicas: a lógica clássica (D/2), a dialética hegeliano/marxista (I/D) e a lógica transcendental (I). Quanto a esta última, não é preciso mais do que ler umas vinte páginas da introdução da Lógica formal e lógica transcendental de Husserl (infelizmente, até hoje, sem tradução para o Português), para não falar de toda a Crítica da razão pura que só trata disso. Bastaria, agora, que estas pessoas se colocassem apenas uma pergunta: se a dialética é lógica síntese da lógica da identidade e da diferença (I/D), e se a lógica da identidade é a mesma coisa que lógica transcendental (I), onde estaria a lógica da diferença? Abrindo um parêntese, é a mesma coisa que, no âmbito do idealismo alemão, filiar Fichte (I) a Hegel (I/D) esquecendo Schelling (D). Bem, caso a lógica da diferença se confundisse com a lógica clássica (ou Schelling com Aristóteles) você teria que admitir a subordinação da lógica clássica à dialética. Se você não concorda com isso (e este é o caso da quase totalidade dos resistentes), então, simplesmente a lógica da diferença não é a lógica clássica. Por isso, estaria faltando considerar ainda uma quarta lógica. Esta é a lógica freudiana do pensar inconsciente, aquela que Lacan denominou com grande propriedade lógica do significante. Como a lógica do simbólico é a dialética - conforme ensinou-nos Platão em seu diálogo Parmênides -, ao desconsiderarmos o sentido para ficarmos apenas com o significante, estaremos desconsiderando o I de I/D e ficando apenas com D; não parece óbvio?! Em suma, desconhecer a existência de pelo menos quatro lógicas, que não podem se reduzir umas às outras, é o mínimo que se pode pedir a alguém, como eu disse, que se pretenda alfabetizado em filosofia.

Quanto às letras I, D. I/D etc. é apenas uma taquigrafia, uma simbologia mnemônica que me facilita bastante o pensar. Se alguém achar que é matemática de alta sofisticação, pode jogá-las fora, o que não altera em nada a essência do que eu digo. Mas veja, se este alguém não compreendeu com as letras muletas, pior vai se haver só com as próprias pernas! Aliás, recorrer a letras em matéria de lógica não é invencionice minha, mas uma tradição com pelo menos 2300 anos!



MCB- Você explicou o fato, aceito, mas não a resistência...!

LSCS- Acho que, ainda que obliquamente, a coisa está dita. Para falar da multiplicidade das lógicas eu podia parar no inventário de apenas três. Continuei porque era importante colocar a quarta lógica, que é a lógica da diferença D, precisamente a lógica do outro ou do inconsciente. A lógica clássica D/2 subsume as lógicas I, I/D e, além, a lógica da diferença D, o que significa que a preserva ao mesmo tempo que a recalca. Em termos pessoais, isto eqüivale à superação da problemática edipiana e, em termos sociais, à instauração da cultura cínica científica (D/2) sobredeterminando a cultura trágica grega (D). Num caso e noutro, trazer a lógica D à superfície assusta, na medida em que representa a volta do recalcado. Eu estou mesmo dizendo que o fenômeno é inconsciente, especificamente da ordem da resistência. Em apoio a isto está o próprio fato da lógica da diferença D, embora se constituindo numa lógica fundamental, ter sido a última das lógicas de base [8] a ser desvelada.

A minha clínica, que são as minhas palestras, mostra isto com bastante evidência. Em muitas pessoas o inconsciente é mais arguto do que o consciente e percebe logo onde eu vou chegar mal começo a falar da multiplicidade das lógicas. Quando isto acontece o inconsciente invade o consciente ordenando que este se recuse a compreender, que diga não a não importa o que vá ouvir. Seria cômico se não fosse muito triste ver, na oportunidade, pessoas com razoável grau de instrução e responsabilidade dizer obsessivamente (D/2) besteira em cima de besteira.



MCB- Isto explica a resistência às lógicas de base, particularmente à lógica da diferença. Mas por que então também a resistência à lógica hiperdialética ou qüinqüitária?

LSCS- Creio que é uma decorrência do fato anterior, porque a lógica qüinqüitária (I/D/2) é a síntese das anteriores, é a lógica que as administra. Mas podemos especular um pouco mais. A lógica da diferença é a que até hoje tudo comandou, porque, como nós sabemos, ela possui um conjunto de valores próprios ou de verdade (1, -1 e 0, ou seja, verdadeiro, falso e indefinido), a que pertencem todos os valores de verdade das outras lógicas de base. Em resumo, todas as lógicas de base - inclusive a lógica do ser consciente, lógica da identidade ou transcendental - são de algum modo tributárias da lógica da diferença. Você acha que o homem chegou à racionalidade, à era da ciência, consciente ou inconscientemente? Ademais, a lógica qüinqüitária (I/D/2) possui três valores de verdade como a lógica da diferença; porém, acontece que os valores desta última são modos reduzidos dos valores daquela. Intuitivamente, a configuração verdadeiro, falso, indeterminado é uma “abstração” da configuração eu, tu, ele. Daí, pode-se facilmente inferir que o advento da cultura nova (I/D/2) vai significar a derrocada do imemorial e sub-reptício império da lógica da diferença D, o que pode bem explicar a existência de uma forte resistência a nível cósmico (ou cosmo-lógico) à lógica qüinqüitária, resistência esta de que as pessoas seriam apenas vítimas. [É importante lembrar que ficar aquém de sua própria lógica constitutiva, define as psicoses (ficar em D ou aquém), e as neuroses (ficar além da psicose, mas aquém de D/D=D/2 ) é o que nos leva ao sofrimento.]

Falando um pouco mais terra a terra, eu diria que a nível pessoal, ainda prefere-se a certeza ou o cálculo (D/2) da inexorável incerteza do mundo atual, do que enfrentar as incertezas que levam à certeza, que para mim é o advento da cultura nova qüinqüitária (I/D/2).



MCB- Falando nisso, já existiriam sinais inequívocos da chegada da cultura nova hiperdialética ou qüinqüitária?

LSCS- Acredito que sim. Sintomas. A passagem da cultura moderna (D/2) à cultura nova qüinqüitária (I/D/2), pressupõe uma séria crise planetária, guardadas as proporções, semelhante à crise que levou à queda do Império Romano. A atual onda globalizante pode estar preparando esta grande crise.

Seria um pouco complicado lhe mostrar agora as razões pelas quais a lógica da competição ou do mercado (I/D), que hoje faz a mediação entre o desejo individual (D) e o desejo coletivo (demanda agregada) - que antes da modernidade já tinha mediado o político, isto é, a passagem das determinações pessoais à determinação coletiva -, se deslocará para fazer um outro tipo de mediação, de cunho simbólico ou espiritual, que ainda não consigo definir com precisão. Isto quer dizer que continuará a haver competição, mas não econômica ou material, mas algo de cunho simbólico ou espiritual. Quanto à mediação dos desejos (D), não há dúvidas, que ela será substituída por um processo lógico D/2, isto é, contábil, como hoje se contam votos. A informatização geral da sociedade, de um lado, e a oligopolização da produção mundial, de outro lado, são precisamente as pré-condições para que isto venha a ocorrer. Nunca vi maior idiotice do que se preparar para a competitividade econômica, quando ela está a olhos visto aceleradamente declinante. Teremos então uma espécie de economia planejada sem, no entanto, um órgão central de planejamento. Isto me parece já bastante óbvio. São as velhas astúcias da História, como diria Hegel.

Outro aspecto a considerar é que a síntese I/D/2, precisa ser alcançada não só via masculina (I)/(D/2), que reduz a humanidade à técnica, mas principalmente pelas lógicas recalcadas pela cultura moderna, D e I/D, isto é, via (I/D)/(D), que é o modo feminino da síntese I/D/2. Isto significa que a conquista da cultura nova qüinqüitária será concomitante a liberação/realização do ser feminino. E este processo está correndo com tal velocidade que uma só geração é suficiente para que se note enormes mudanças com respeito a este aspecto.

Acredito que já existam muitos outros sintomas, mas nós todos ainda temos grande dificuldade para interpretá-los.



MCB- E a explicitação da lógica I/D/2, pesa alguma coisa nisso?

LSCS- Seria muita pretensão e ingenuidade de minha parte acreditar que sim. Processos de formação de uma cultura levam séculos. A cultura cristã, pode-se dizer, começa a se formar com a helenização promovida por Alexandre, especificamente com a sua invasão da Palestina e só se consolida de vez no Concílio de Nicéia; são aproximadamente 650 anos. Podemos tomar para início da modernidade Erasmo, Santo Alberto Magno ou a chegada de São Tomás de Aquino à Universidade de Paris e, para data de sua consolidação, Descartes, Galileu ou a Revolução Industrial inglesa; temos aí cerca de 500 anos. A formação da cultura judaica, pode-se dizer, se dá entre a fuga do Egito e construção do segundo templo, época da reforma esdraica, e temos aí mais de 700 anos. Não vá levar estes marcos históricos a ferro e fogo, mas de qualquer modo são o suficiente para dar uma idéia aproximada do quantum de que estamos falando: em torno de 600 anos. É sempre assim, os processos culturais são por demais demorados e violentos, e ninguém é capaz de abarcá-los, porque não vive para tanto, nem teria mesmo olhos e estômago para tamanha violência que isso sempre implica. Acho, honestamente, que a compreensão do processo histórico cultural, especificamente, de seus determinantes lógicos, pode evitar um pouco de sofrimento pessoal, constituir-se numa espécie de Prozac, só que ninguém sabe ainda, dos dois, qual produz os piores efeitos colaterais!



MCB- Quais as chances brasileiras com a aproximação da cultura lógico-qüinqüitária?

LSCS- Para o Darcy Ribeiro, as coisas já estariam até consumadas. Para o Caetano Veloso (vão me malhar, porque este não é um autor conspícuo!), ainda não; a questão seria apenas de tomada de consciência, de parar de se sabotar, de não tremer diante da tarefa quase concluída. Estou mais perto do Caetano Veloso, porém, acho o processo cultural brasileiro muito complexo para que se possa já dormir tranqüilo, que já ganhamos. Pelo menos, para garantir que chegaremos lá, valeria a pena um bom investimento nesta compreensão. Não atrapalha, e pode ajudar.

Caso eu esteja certo, seria bom voltarmos à problemática do sujeito da ciência. A marginalidade do Brasil em relação à modernidade não tem nada a ver com a ciência, e seria um absurdo que assim fosse, se nascemos com a modernidade e, Portugal, das nações européias, era a que menores amarras tinha com o feudalismo. O problema, como sempre, é o do sujeito da ciência, que já herdamos de Portugal, e aqui mais se complicou.

Quando os judeus, criadores da cultura da identidade I, foram convertidos a força ou expulsos, Portugal perdia exatamente a força que o faria uma nação moderna. Ficou com o estado burocrático (D/2), mas sem o sujeito liberal, sem a iniciativa privada (I) que o poderia dinamizar. Isto foi bem observado pelo padre Antônio Vieira, que tentou mesmo consertar as coisas, o que lhe valeu um bocado de dor de cabeça... e quase a própria cabeça.

O episódio Pombal se explica nestes termos: por suas andanças e amizades Pombal percebeu que o grande impedimento para a modernização de Portugal eram os jesuítas, com sua insistência no sujeito coletivo universal (I/D). Ele tentou mudar, começando com expulsão dos jesuítas de Portugal, e antes, com a execução de seu provincial local. Não sei porque não tentou o sujeito anglo-saxônico (fora embaixador na Inglaterra). Insistiu (ou conformou-se) com um sujeito coletivo (I/D), porém nacionalizado, o que vai na direção de D. A criação do Colégio dos Nobres, é algo exatamente neste sentido. É a mesma lógica do conflito entre a Igreja e os militares no Brasil de 64 para cá.

No Brasil, como herança portuguesa, as elites são pelo sujeito coletivo (I/D). A parcela civil, educada jesuiticamente, opta pelo sujeito coletivo universal, internacionalizado. Já a parcela militar merece um capítulo a parte. Ela também opta pelo sujeito coletivo, porém, nacionalizado (particularizado), o que, a princípio, além de uma contradição, a leva para os lados de D, seguindo o mesmo esquema pombalino. Isto não quer dizer, entretanto, que caiam necessariamente na posição fascista, e isto, por duas razões: a primeira, porque são travados justamente pelo seu apego ao racionalismo (D/2); a segunda, derivada desta, é que a lógica D, ao invés de visar o corpo, o gozo, justamente porque recalcada por D/2, visa o sacrifício (do gozo), à geopolítica, à guarda dedicada das nossas fronteiras, do espaço físico da nação abstraídas as pessoas. Esta coisa complicada leva o rótulo de positivismo das Forças Armadas Brasileiras! Positivismo que tem alguma coisa com a ciência, com a racionalidade, mas, como sempre, como você pode ver, muito mais com a escolha do seu sujeito apropriado.

Agora a situação ainda mais se complica com a forte presença da cultura negra (Bantu), que manifestamente tende para o sujeito libidinal D. Assim, não vamos nunca na direção do sujeito I; de um lado, a elite tende para a esquerda I/D (a parcela civil, coerentemente, para o internacionalismo, e a parcela militar, se enreda naquela complicação, indecisa entre o sujeito coletivo nacional - I/D submetido a D -, e não ter qualquer sujeito - D/2 subjugando D, inclusive barrando sua aliança com o povão); de outro lado, o povão para a direita D. Esta é, muito esquematicamente, a lógica da nossa resistência à modernidade. Insisto em que estou simplificando demais por não considerar aqui a cultura dos índios, as migrações européias e asiáticas para o Sul e principalmente as variantes regionais.

A tentativa de modernização do Brasil é hoje feita, primeiro, pela penetração das seitas evangélicas no estrato social de mais baixa renda (bastante ambígua, porque feita metodologicamente de maneira D, dado o peso da herança cultural africana neste estrato); depois, empurrando o estrato médio (excluídos os saduceus cooptados que aderem ao conquistador) para a “livre iniciativa” através da instabilização do emprego ou mesmo da sua supressão (engenheiros especializados que deixam empregos em estatais para ter seu próprio taxi ou carrocinha motorizada de venda de cachorro quente); por último, pela substituição da “clientelista” (I/D) elite econômica nacional pela “auto-determinada” (I) elite econômica internacional (I).

Ao invés de resolver, isto está, sim, tornando a situação brasileira absurdamente complexa e confusa. É isto mesmo, ninguém consegue entender o Brasil. Por isso a necessidade, para começar, de esquematizações drásticas como estou tentando fazer aqui. Depois, é que a poderemos refinar.

Vejo tudo isso com grande apreensão dado o alto nível de alienação das elites políticas e de boa parte das intelectuais brasileiras.

Por outro lado, já vimos que é precisamente das lógicas femininas que se precisa para criação da cultura nova. E aí está o mais interessante: a tendência histórica oscilante entre I/D e D atrapalha a ida para a modernidade I, mas ambas são essenciais para a criação da cultura nova qüinqüitária. O erro dramático é forçar o Brasil a entrar para o primeiro mundo, correr atrás dos EUA, quando o que deveríamos fazer é ultrapassá-lo, não via política ou econômica, mas culturalmente. Como eu gosto de repetir, nossa grande vocação é a originalidade, e não o luxo.

A meu juízo o Brasil jamais será moderno; se insistirmos como estamos estupidamente fazendo agora, corremos um grande perigo, o da desagregação cultural, e a seguir, a desagregação política e econômica da nação.



MCB- Você pode dizer, especificamente, quais seriam as ameaças ou perigos que hoje nos estariam rondando?

LSCS- Como a guerra é cultural, o objetivo estratégico fundamental é o de se apoderar do imaginário do outro e promover, por aí, a destruição da sua integridade cultural [9]. Isto é feito hoje sem descanso, buscando atingir a religião, a música, os jogos infantis, as relações familiares tradicionais, o ensino de história, etc. Corroem o esporte coletivo em proveito do esporte individual, enfatizando corridas de carros, o tênis, etc. Procuram desmobilizar as paixões transformando clubes de massa em empresas e as equipes em amontoado de estrelas. O assalto, sob a denominação de modernização globalizante, às escolas de samba não tarda. Você já parou para ver um anúncio?! Digo ver e não se deixar violentar. Veja os comerciais do Mc Donald’s (cafetinando o futebol brasileiro), da Peugeot (fazendo a promoção de eu sozinho), do cigarro Free (proclamando o caráter relativo de todas as coisas, exceção do referido cigarro, que passa assim a ocupar o lugar da cultura) e milhares e milhares de outros. O marketing televisivo, e não os filmes de ação, é que são a causa primeira do crescimento da violência no Brasil.

Eu digo que a propaganda é a indústria do inconsciente; a psicanálise seu pobre artesanato. Quando Freud, chegando de navio aos EUA, disse que ali estava aportando a peste, não podia estar mais certo ... e mais louco pelo sucesso (mesmo que fosse este), aliás, como sempre esteve!

Veja só, o incentivo à jogatina por todos os lados e ao sexo debochado é apresentado como nossa maior conquista em termos de liberdades democráticas! [E viva o farsismo!]

Você sabe que uma das nossas grandes vantagens é a tradicional resistência da cultura negra, mas aí também ronda o perigo. Ou se tenta transformar o direito à cidadania plena de fundamento cultural em luta meramente econômica, pagável em espécie, ou se ataca direto no plano cultural, com a “evangelização” ou mesmo com a “islamização”, como se está fazendo nos EUA.

O mais grave, é que tudo isto é feito com a conivência (a palavra mesmo é traição) das nossas elites políticas, econômicas e “intelectuais”. Uma das formas mais insidiosas de fazer isto é através da defesa do multiculturalismo, que agora se tornou moda intelectual.



MCB- Num País como o Brasil, a multiplicidade cultural não seria uma virtude?

LSCS- Em termos. A multiplicidade cultural é ótima quando se tem em mira a construção de uma nova cultura. Se não é este o caso, estamos sim criando uma nova Iugoslávia.

O que está em causa é o ocultamento da dimensão cultural, que é o fundamento, em última instância, da unidade de qualquer grupo social. Veja, existem hoje uma porção de discursos marcadamente ideológicos com o propósito deliberado de ocultar a dimensão cultural do ser social. O mais comum e grosseiro é afirmar que o social está composto de três dimensões básicas: o político, o econômico e o social. Isto é hoje repetido à exaustão e estrutura todos os discursos públicos e privados; está na Constituição (ordem política, ordem econômica e ordem social) e no discurso doutoral do Presidente (Presidente dos interesses internacionais no Brasil). Outro, um pouco mais sutil, está precisamente na defesa irrestrita do multiculturalismo, discurso já com uma certa áurea de nobreza acadêmica. Ainda outro, é desvirtuar a cultura sob a pecha do psico-social.

O primeiro discurso constitui uma absurdidade tão grande quanto afirmar que o corpo humano está dividido em três parte - cabeça, tronco e corpo humano - ou, que a Trindade é formada pelo Espírito Santo, pelo Filho e pela Trindade mesma, ocultando, lacanianamente, o nome do Pai. Trata-se de um discurso facilmente desmontável, desde que não lhe sejamos também coniventes. O correto seria ter o cultural no lugar do social (se você reparar bem, o que chamam social é o lado podre do modelo econômico). Assim deve ser - político, econômico e cultural -, não por capricho ou revelação, mas porque a cultura é o fundamento da unidade do ser social, o econômico, necessariamente fonte de suas diferenciações internas, e o político, o lugar da síntese que permite recuperar o ser uno, agora uno/trino ou dialético. Quanto maior a espessura e consistência cultural de um grupo social, mais ele pode dar largas à inventividade tecnológica e ao dinamismo competitivo, pois a nível político pode-se tudo remediar e assim recuperar a imprescindível integridade grupal (este é o caso precisamente dos EUA). Estas prosaicas observações servem também para deixar a nu o caráter ideológico, e novamente absurdo, do discurso filo-multiculturalista: o múltiplo que é, ao mesmo tempo, um, [sem que se trate aí de um pensar lógico-dialético]. Algo equivalente ou pior do que um círculo quadrado!

Quanto ao psico-social, não é preciso explicar nada, o próprio significante, no caso, já diz absolutamente tudo. É novamente o social no lugar do cultural, com o agravante do psico, que lhe dá um tom inequivocamente manipulativo.



MCB- Você está sempre insistindo na lógica e na cultura e todo mundo só fala em economia e mercado. Você não estaria na contramão da história, correndo o risco de ser taxado de culturossauro?

LSCS- Ao estarmos na contra-mão corremos o sério risco de sermos atropelados, e isto deve ser tomado mesmo ao pé da letra.

A Grande História, não é a história da luta de classes, mas a história (I/D) da luta de culturas (D), por isso um processo lógico hiperdialético qüinqüitário (I/D/2). O atual processo de globalização é essencialmente cultural. Isto só não é mais facilmente percebido porque a concepção de cultura para os americanos é primordialmente cultura de massa, e não, como a concepção francesa e também nossa, cultura de elite. Assim, o marketing é o grande veículo cultural americano, vale dizer, para eles, política/estratégia econômica e política/estratégia cultural em boa parte se confundem. Para que eles possam jogar sozinhos, é importante dar a impressão que o jogo é outro, apenas o dos meios e não dos fins, que a grande problemática do mundo é econômica. Eles jogam o jogo mesmo, que pode ser boliche, e nos põem para jogar baralho; não importa o quanto nos esmeremos, sempre perderemos, simplesmente porque o jogo é outro. Quando alguém chama a atenção para o fato de que o jogo é cultural, passa a sofrer riscos de atropelamento.

Aqui é muito importante ter em conta a explicação lógica do fascismo de que falamos há pouco. A conexão fascismo/defesa antecipada da cultura contra a agressão mercado-lógica, precisa ficar a nível subconsciente para permitir a conexão automática defesa da cultura/fascismo. Aí está: se você defende a cultura, é logo acusado de fascista, o “subconsciente coletivo”, pelo que já expliquei, referenda este anátema e você é cercado e não consegue qualquer acesso à mídia. Se insistir, corre o risco de ser atropelado mesmo, como se fora um reles culturossauro, como você diz.



MCB- Que sentido pode ter a expressão filosofia brasileira? E, a seu juízo, como vai a produção filosófica brasileira?

LSCS- Para Heidegger, a filosofia é grega e talvez apenas os alemães tenham (ou tinham) condições de continuá-la. É óbvio que Heidegger sabia bem o que dizia. De fato, a filosofia é a pergunta pelo ser, mas o autenticamente grego é o distanciamento implícito à pergunta (D) e não o ser (I). Isto só poderia ser conseguido por uma cultura prometêica ou trágica D, que, para constituir-se, precisava justamente recalcar o ser (ou o sentido do ser) (I). O homem grego é o que se contrapõe ao deuses e não o que emana do Deus único e que também Neste encontra o seu destino.

A pergunta já pressupõe a perda. Por isso, Heidegger pode concluir com grande acerto que Platão acabou com a filosofia, pois foi buscar a resposta para a pergunta pelo ser (ou pelo sentido do ser) para além da diferença, na dialética. Acabava assim com a Grécia, embora estivesse antecipando em tudo a cultura cristã patrística, como você mesmo pode constatar lendo o Timeu.

Só discordamos porque para mim Platão não representa o fim da filosofia, mas apenas do seu período fundador grego.

A filosofia é um saber muito peculiar que sempre incorpora a anti-filosofia (fez assim com o positivismo, o neopositivismo e agora está fazendo com a psicanálise) e com isso dialetiza-se, faz-se confundir com sua própria história. Assim, a filosofia depois dos gregos deixou de ser a pergunta pelo ser perdido para se constituir na busca esperançosa da unidade de ser e pensar como modo de auto-desvelamento do homem. Tornou-se, por isso, também, saber crítico da cultura [10]. O seu grande problema hoje é subsumir a ciência, o que a fará então filosofia hiperdialética qüinqüitária. Esta, por enquanto, ainda é apenas uma oportunidade.

Agora, pode-se abordar a sua pergunta acerca de se existe ou não filosofia brasileira. Bem que poderia haver, se tivéssemos a coragem e têmpera para assumir esta tarefa, que se confunde hoje, em parte, com o empenho na construção da cultura nova qüinqüitária.

Quanto á produção brasileira de estofo acadêmico seria leviandade minha dar uma resposta; não conheço o suficiente. Creio que possa existir muita coisa de alta qualidade, como seguramente é o caso da produção do Newton da Costa, do Gerd Bornheim, do Miguel Reale. Melhor seria dirigir a pergunta para o Aquiles Côrtes Guimarães, o Jorge Jaime ou o Antônio Paim, que são os grandes especialistas neste assunto [11]. De qualquer modo, a circulação das idéias filosóficas entre nós é a pior possível. Aqui, em geral, nem as editoras privadas nem o Governo fazem qualquer coisa para ajudar, como acontece na França e nos EUA, cada um do seu modo, evidentemente. Aqui, [de cima vindo o mal exemplo,] praticamente só se raciocina (um eufemismo) em termos econômicos, e assim mesmo mediocremente.



MCB- Para terminar, uma questão bastante prática: como você orientaria a introdução da filosofia no segundo grau, que se tornou agora matéria obrigatória?

LSCS- Esta é uma questão que me preocupa bastante, e há cerca de dez anos fiz uma palestra, a convite do professor Antônio Xavier Teles, num ciclo para aperfeiçoamento de professores no Colégio Pedro II. Cheguei a preparar um texto de umas 50 páginas para a ocasião, que veio a ser Noções elementares de lógica - Compacto, que você já conhece. Se bem me recordo, parti da premissa que a matéria deveria ser acessível e interessante não só por si, mas igualmente pelos seus desdobramentos. Propus que se começasse no segundo semestre do penúltimo ano do segundo grau com o assunto Lógica clássica, tendo-se o cuidado de, primeiro, explicitar e discutir com alguma profundidade os seus três princípios consagrados - identidade, não contradição e terceiro excluído -; segundo, proporcionar ao aluno um mínimo de destreza operatória no trato dos conectivos lógicos através de suas tabelas de valores de verdade.

No primeiro semestre do último ano, o aluno teria sua Iniciação à informática, que o estaria aproximando e motivando para aquela área onde justamente serão maiores as oportunidades de trabalho; e aí a destreza operatória alcançada no trato dos conectivos lógicos lhe estaria sendo de grande valia.

Em paralelo, o aluno continuaria o seu curso de Iniciação à filosofia nos dois semestres do último ano. Um semestre seria dedicado à História da filosofia, organizada cronologicamente, é obvio, mas secundariamente segundo o eixo temático. A discussão do princípio clássico da identidade serviria para introduzir a filosofia crítica kantiana e a fenomenologia (I). A mesma coisa seria feita com o princípios clássico da não contradição e do terceiro excluído, o que daria ensejo à apresentação, de um lado, dos pensadores dialéticos (I/D), e de outro lado, da filosofia da diferença e da finitude (D). A aceitação dos três princípios seria a oportunidade de apresentação dos positivistas e neopositivistas (D/2). O segundo semestre seria dedicado às grandes problemáticas filosóficas. Estas seguiriam também seus determinantes lógicos: ser/pensar (I), conhecer (D) e agir (I/D); depois, ser/parecer (I; D) e ser/dever ser (I; I/D), respectivamente, a estética e a ética.

Acho que se deveria dedicar algum tempo à questão do transcendente, no âmbito do qual se pode adequadamente colocar a questão de ser/dever ser, por conseguinte, a questão ética. A questão do Absoluto pode aí também ser posta independente da eventual confissão religiosa dos alunos.

Não dá para entender porque não se faz absolutamente nada neste sentido, e seria tão fácil! O mercado, sempre o mercado, brevemente estará cheio de manuais de baixa qualidade sendo impingidos aos alunos, principalmente para os de família de mais baixa renda e perdida assim mais uma oportunidade para fazer alguma coisa séria em educação no Brasil, o que não acontece, eu acho, desde o tempo do presidente (do Brasil) Getúlio Vargas, do ministro Capanema e do educador Anísio Teixeira (estou radicalizando, porque existiu o Paulo Freire e por certo alguns outros heróis que desconheço).




NOTAS CONJUNTAS DO ENTREVISTADO E DO EDITOR

1. As expressões I, D, I/D etc. são apenas uma taquigrafia, uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Teríamos, então, I/D (lógica dialética), D/D=D/2 (lógica clássica), I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. Na esfera mundana, a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Para maiores detalhes, ver SAMPAIO, Luiz Sergio C. de, Noções de antropo-logia. Rio de Janeiro, UAB, 1996 (xerografado) ou BARBOSA, M. C. As Lógicas. Rio de Janeiro, Makron Books, 1998. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém, desde que não as tema, possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático.

2. Hoje eu citaria, como fundamental, M. HEDEGGER, Heráclito, Rio de Janeiro, Relume-Dumara, 1998.

3. Menção a Heidegger et le nazisme de Victor Farias, Paris, Verdier, 1987

4. Referência aos escritos de Hegel de sua fase em Frankfurt focalizados em Hegel a Frankfort ou Judaïsme-Christianisme-Hegelianisme, de Bernard Bourgeois, Paris, J. Vrin, 1970

5. Referência a Georges Sorel. A propósito, ver Sternhell, Sznajder, e Ashéri, Naissance de l’idéologie fasciste, Paris, Gallimard, 1989.

6. Alusão a Walter Benjamin, Sampaio se perguntando onde a causa, onde o efeito.

7. Trata-se de Heidegger, M. Introdução à metafísica, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1966 p.79

8. As lógicas de base são as lógicas subsumidas pela hiperdialética qúinqúitária: I, D, I/D e D/D. Este conjunto, que forma a base da pirâmide representativa de I/D/D, é de grande importância porque suas diagonais, segundo Lacan (lido por nós), permitem a re-definição da sexualidade no ser-humano. Cf. SAMPAIO, L. S. C. de, Lacan e as Lógicas, Rio de Janeiro, 1992 in Sete ensaios a partir da lógica ressuscitada, Rio de Janeiro, Ed. UERJ (no prelo)

9. A propósito, acabam aqui no Rio de substituir as cores rubro-negras do Metro, pelo azul e branco do sempre excelente selecionado argentino.

10. Esta noção já se encontra em E. Cassirer.

11. Seria também importante mencionar, agora, depois de já editados os dois primeiros dos quatro volumes programados, JORGE JAIME, História da filosofia no Brasil, Rio de Janeiro, Vozes, 1998/99, que pela sua extensão e generosidade do autor, bem pode nos trazer gratas surpresas.
NOTAS CONJUNTAS DO ENTREVISTADO E DO EDITOR

1. As expressões I, D, I/D etc. são apenas uma taquigrafia, uma simbologia mnemônica para designar as diversas lógicas da tradição. Existiriam duas lógicas fundamentais: I (lógica transcendental ou da identidade) e D (lógica da diferença). As demais lógicas seriam delas derivadas através da operação de síntese dialética generalizada simbolizada por “/ ”. Teríamos, então, I/D (lógica dialética), D/D=D/2 (lógica clássica), I/D/D=I/D/2 (lógica hiperdialética ou qüinqüitária) etc. Na esfera mundana, a ultima é por nós considerada a lógica própria e exclusiva do ser humano. Para maiores detalhes, ver SAMPAIO, Luiz Sergio C. de, Noções de antropo-logia. Rio de Janeiro, UAB, 1996 (xerografado) ou BARBOSA, M. C. As Lógicas. Rio de Janeiro, Makron Books, 1998. É bom alertar que o presente texto foi construído para ser lido independente destas referências taquigráficas. Elas aqui estão porque acreditamos que alguém, desde que não as tema, possa tê-las como um conveniente e simples apoio didático.

2. Hoje eu citaria, como fundamental, M. HEDEGGER, Heráclito, Rio de Janeiro, Relume-Dumara, 1998.

3. Menção a Heidegger et le nazisme de Victor Farias, Paris, Verdier, 1987

4. Referência aos escritos de Hegel de sua fase em Frankfurt focalizados em Hegel a Frankfort ou Judaïsme-Christianisme-Hegelianisme, de Bernard Bourgeois, Paris, J. Vrin, 1970

5. Referência a Georges Sorel. A propósito, ver Sternhell, Sznajder, e Ashéri, Naissance de l’idéologie fasciste, Paris, Gallimard, 1989.

6. Alusão a Walter Benjamin, Sampaio se perguntando onde a causa, onde o efeito.

7. Trata-se de Heidegger, M. Introdução à metafísica, Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1966 p.79

8. As lógicas de base são as lógicas subsumidas pela hiperdialética qúinqúitária: I, D, I/D e D/D. Este conjunto, que forma a base da pirâmide representativa de I/D/D, é de grande importância porque suas diagonais, segundo Lacan (lido por nós), permitem a re-definição da sexualidade no ser-humano. Cf. SAMPAIO, L. S. C. de, Lacan e as Lógicas, Rio de Janeiro, 1992 in Sete ensaios a partir da lógica ressuscitada, Rio de Janeiro, Ed. UERJ (no prelo)

9. A propósito, acabam aqui no Rio de substituir as cores rubro-negras do Metro, pelo azul e branco do sempre excelente selecionado argentino.

10. Esta noção já se encontra em E. Cassirer.

11. Seria também importante mencionar, agora, depois de já editados os dois primeiros dos quatro volumes programados, JORGE JAIME, História da filosofia no Brasil, Rio de Janeiro, Vozes, 1998/99, que pela sua extensão e generosidade do autor, bem pode nos trazer gratas surpresas.